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Terça-feira, 29 de Abril de 2008
As Benevolentes

JONATHAN LITTELL, O NOVO MESTRE DA SUSPEITA

Crítica de João Gonçalves

 

Correm os derradeiros anos da segunda guerra mundial. O narrador, ex-nazi convicto, olha agora para esse tempo com a melancolia da indiferença, sem remorsos nem pesos na consciência. É um ironista que reflecte sobre os escombros sem um vislumbre de arrependimento. O que foi, foi o que foi porque teve de ser assim, como se um determinismo amoral tivesse arrastado milhares de homens inteligentes para um abismo no qual, sem excessiva repugnância, experimentaram os cheiros e as cores da mais repugnante das mortes. As “memórias” de um antigo oficial nazi são o pretexto para Jonathan Littell “reconstruir” os derradeiros passos do regime de Hitler - para o Leste onde se atafulhou e perdeu –, recortando, vistos a partir do lado “deles” (até agora só tínhamos tido direito às versões romanceadas “correctas” da história, a dos vencedores), os perfis de homens do regime tal como eles existiram ou como o autor os ficcionou. “As Benevolentes” também é um imenso livro de história onde se surpreende a esquizofrénica burocracia do III Reich, algo a que Fest apelidou de improvisação organizada, já a caminho do seu fulgurante crepúsculo.

No texto de Littell revela-se como o bem e o mal se misturam nas peripécias de uma vida pessoal e de uma narrativa colectiva sem que isso lhe confira um estatuto de fatalidade dentro da fatalidade que efectivamente foi. Revela-se como a ficção da realidade - a realidade e a ficção que coincidiam no III Reich -  pode ser “ultrapassada” através de um passeio numa paisagem paradisíaca que deixou para trás o cheiro fétido de cadáveres ou o estampido de uma arma disparada contra a nuca anónima. Revela-se como Bach ou Monteverdi sublimavam a violência interior que massacra o adversário indefeso com uma tranquilidade que, devendo assustar o leitor, apenas o sossega umas quantas páginas mais adiante. Littell entendeu bem o que Arendt quis significar com a expressão “banalidade do mal” a propósito do julgamento de Eichmann em Jerusalém. A leitura mais simplista exclamaria: “lê-se e não se acredita”. Ora a “tese” de “As Benevolentes” é justamente a contrária. Lê-se e acredita-se e eu, narrador, acreditava especialmente.

Por que é que “As Benevolentes” arrisca ser simultaneamente um dos grandes momentos da literatura contemporânea e uma tragédia clássica? Julgo que, enterrado o fantasma do “novo romance” e, sobretudo, quando se enchem escaparates com novos “romancistas”que nos vêm contar histórias de embalar que, de tão medíocres, acabam por ser pornográficas, Littell – provavelmente impossibilitado de escrever o que quer que seja depois deste “fresco “ monumental -  emerge como o novo “mestre da suspeita”. O respeitável oficial das SS que nos explica a sua vida e a tenta perceber, anos volvidos sobre a catástrofe, é, no desalinho dessa “história” cruel, revista, corrigida e aumentada, o Deus sem fé que se esconde no coração do homem vazio de hoje. Crê-se, afinal, um justo nos antípodas da personagem da peça de Camus. Quem, de entre nós, poderá atirar a primeira pedra?

 

[Jonathan Littel, As Benevolentes. Tradução de Miguel Serras Pereira. Dom Quixote]



© publicado pela Ler às 08:16
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Heterodoxias || Coluna de Eduardo Pitta


Quem legitima?

 

 

Num país pequeno como o nosso, o que é hoje a legitimação em literatura? A pergunta faz sentido no momento em que um cada vez maior número de livros e autores desorienta quem os compra e lê atado ainda ao preconceito dos lugares selectos. Instituindo novas condições de acesso ao Panteão, o fenómeno da multiplicação teria transformado a literatura numa terra de ninguém. Mas chegaram exactamente quando, os bárbaros?

Quando Dinis Machado, que toda a vida escrevera romances policiais sob o pseudónimo de Dennis McShade, investiu em nome próprio na novela pícara O que diz Molero (1977), que esteve a um passo de ser atribuída a um supra-Camões? Ou quando António Lobo Antunes irrompeu na cena literária com dois livros que a universidade desaconselhava aos alunos como não-literatura? Nem mais: Memória de Elefante, a estreia desconcertante, logo seguida de Os Cus de Judas, ambos de 1979, ano que foi também o do surgimento de Lídia Jorge com O Dia dos Prodígios, embora Lídia chegasse com caução de Vergílio Ferreira, privilégio que a isentou de querela nos círculos esotéricos que discutiam os graus de radiação de Finisterra (1978), de Carlos de Oliveira. E foi também em 1979, e portanto já póstuma, que apareceu Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, obra maior que diz em letra de forma o que a teia cerrada dos planos simbólico-narrativos elide. Por ser quem era, e por estar morto, Sena passou incólume.

Fazendo vista grossa, o mandarinato assobiou para o lado. Era tarde, porém. Quando deram pela coisa, mudara o modo de legitimação porque Portugal decidira, à sua revelia, acompanhar o movimento do mundo. Aos poucos, a hegemonia do Partido Comunista rarefez-se. Novas regras de mercado, e novo modelo de jornalismo literário, hoje reduzido à sua expressão mínima, fizeram o resto. A literatura perdera definitivamente a sua aura de clube privado.

O processo foi lento, mas consequente. Para Rita Ferro, filha e neta de escritores, admitida na tribo em 1990, por via de um Nó na Garganta que potenciou chusmas de epígonos-fêmea, inventou-se o conceito de literatura light, vénia que fez escola e atingiu o paroxismo com o famoso Sei Lá (1999) de Margarida Rebelo Pinto. Mas Margarida não cabia no formato, e virou marca. Uma dúzia de livros e um milhão de exemplares mais tarde, ainda patinha no quintal dos happy few. Injusto? De certo modo. Tivesse vindo à boleia de uma cátedra, com editor atento ao edit, e outro galo cantaria. Exemplos não faltam. Continuaria desinteressante? Com certeza. Pelo menos tão desinteressante quanto a norte-americana Barbara Kingsolver. Apesar de tudo, valeu a pena. De outro modo, Miguel Real não teria podido fixar essa fórmula definitiva que é o Realismo Urbano Total... No ínterim, enquanto obra de mulheres, a literatura light foi sendo assimilada. Contudo, da lavra de homens, dispensa o adjectivo. Porquê? Nada os distingue. Falam, uns e outros, daquilo que os atazana. Eles, em língua tépida, de correntes de escritores. Elas, a língua em brasa, de machos que as viram do avesso. Muda o tropo e nada mais.

Daí o escritor novo, oriundo dos media. Até ver, o escritor novo são dois. Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos. Vendem muito, entraram no mercado de língua inglesa, polarizam invejas. O sucesso tem a contrapartida do tumulto. Presumo que a universidade faça com eles o que fez com Lobo Antunes até à consagração francesa. Et pour cause. Se alguém prefere Mafalda Ivo Cruz ou Rui Nunes (eu, por exemplo, prefiro Rubem Fonseca e Philip Roth, e só não meto Suetónio ao barulho para não alvoroçar a malta), que lhes faça bom proveito. O grande problema, nestas coisas, não é a legitimação em si mesma. O busílis reside na perpetuação dos equívocos que alimentam o Who’s Who da nossa vida literária.

Por isso é que, apoiado num factor de omissão, o sucesso de Gonçalo M. Tavares traduz a incredulidade de quem, tendo lido Jerusalém (2004) ou Aprender a Rezar na Era da Técnica (2007), deu conta da possibilidade de retorno às antigas convenções. Aparentemente, podemos dormir descansados.



© publicado pela Ler às 08:13
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