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Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008
Margarida Rebelo Pinto: «Sou uma pessoa ambiciosa»

Entrevista de Carlos Vaz Marques



Acabou tudo em bem. Com uma despedida cordata e um convencional «até qualquer dia». Apesar de Margarida Rebelo Pinto ter chegado a interromper a entrevista a meio, lançando a mão direita ao gravador, desligando-o abruptamente, num gesto nervoso. Estamos na esplanada do Centro Cultural de Belém. O local foi escolhido pela escritora. Está sol. A intervalos regulares eleva-se o ronco do comboio da Linha, quase abafando as vozes. Enquanto espero que a tensão se dissipe, depois do episódio do gravador, Margarida põe os óculos escuros, espelhados, em que hei-de ver-me reflectido até ao fim da conversa. Três anos depois de ter interposto uma acção judicial, que perdeu, contra um professor universitário que a criticou, o «Caso Couves e Alforrecas» continua, aparentemente, por sarar. Na altura em que publica o 14º livro desde que se estreou, em 1999, com o romance Sei lá, Margarida Rebelo Pinto considera-se uma mulher diferente depois do AVC que sofreu há cerca de um ano. E uma escritora mais madura. Português Suave, o novo romance, já fala do passado, faz questão de sublinhar. Como faz questão de sublinhar que já ultrapassou a meta, a que se tinha proposto, de vender mais de um milhão de exemplares dos seus livros. Embora o sucesso – reconhece – seja um bem perecível.

Leva-se a sério, como escritora?
Agora, já. Nos primeiros anos, a vertigem foi tão grande que eu nem pensava nisso. Com os bestsellers em catadupa, a atropelarem-se uns aos outros. Depois, talvez a partir de Alma de Pássaro, o terceiro romance, comecei a levar-me mais a sério. Acho que entrei num processo de maior introspecção. Quando cheguei ao Pessoas como Nós comecei mesmo a levar-me a sério.
O que é que significa levar-se a sério?
Comecei a olhar para o meu trabalho com outros olhos. Com uns olhos mais críticos. Mais maduros. Senti que estava a crescer como escritora. O tempo ia passando e eu ia conseguindo produzir cada vez mais. E, quanto a mim, obras de melhor qualidade. Gradualmente. Como quem sobe umas escadinhas, degrau a degrau.
Sente-se a subir uma escadaria?
Sinto-me a subir uma escadaria. É muito longa. Mas não é a Torre de Babel.
O que é o topo?
Não há topo. Para mim, o topo é sempre o livro que vai sair. Acho que é sempre o melhor que eu já fiz. Depois, assim que ele sai, é como diz o Lobo Antunes: o melhor há-de ser o outro a seguir. Enquanto romancista, olho sempre para as últimas duas ou três obras que fiz. Tento perceber o que funcionou melhor nelas. Se foi o diálogo introspectivo, se foi o jogo de espelhos, se foi a polifonia, se foi o encadeamento entre a acção interior e a acção exterior.
Como é que determina se tudo isso funcionou ou não?
Eu não determino. É o mercado que determina por mim. Tenho imensa sorte, não é?
Mas como é que se apercebe de que tudo isso funcionou ou não?
Leio. Sou muito crítica. Leio e releio.
Lê-se a si própria?
Sim. Mas só os últimos livros, os primeiros não. Já me sinto muito distante deles.
Comecei por lhe perguntar se se leva a sério porque no prefácio ao seu primeiro livro de crónicas escreveu: «Nunca me levei a sério nem como pessoa nem como cronista.»
Mas isso foi há oito anos. O meu primeiro livro de crónicas ainda tem a ver com a minha fase… não digo imberbe, porque eu já fazia crónicas há muito tempo. Na altura eu escrevi isso – terá sido em 2000 – penso que por oposição àquela imagem muito séria e muito pesada que os escritores – até mais os escritores do que as escritoras – gostam de dar. Uma imagem de grande austeridade, de alguma… não diria tristeza, mas de alguma angústia, no seu trabalho. De algum peso. Eu acho que a literatura em Portugal sempre esteve associada a uma coisa muito pesada.
O seu objectivo é retirar-lhe esse peso?
Não. Eu nunca senti peso a escrever. Nem tenho um discurso pesado, nem tenho uma imagem pesada.
Mas tinha sentido esse peso enquanto leitora da literatura portuguesa.
Sim. Sempre senti esse peso e sempre vi esse peso na imagem dos escritores. Sempre vi os escritores portugueses como uma gente pesada, austera, infeliz. Já nem estou a contar os que se atiraram da janela. Os Mário de Sá-Carneiro e essa gente. Sempre houve uma colagem a uma imagem dura, um bocado anti-social, dos escritores portugueses. O que nem sempre era verdade. Eu gosto muito mais da imagem do escritor um bocado boémio, que se relaciona com pessoas de diferentes artes e que está sempre no meio da confusão.
Também há muito disso na literatura portuguesa.
Há menos.
Desde o Mário Cesariny…
Quem me dera que houvesse mais José Carlos Ary dos Santos.
É, para si, uma das imagens dessa possibilidade de leveza na literatura portuguesa?
É uma das várias. Era, porque ele tinha exactamente essa componente lúdica da vida. Ele estava bem no meio de todos os outros artistas, fossem ou não da sua área. Da vida boémia. Eu gosto muito de me divertir. Sou uma pessoa profundamente feliz e divertida.
Diverte-se a escrever?
Muito, muito. Divirto-me muito a escrever. É dos momentos da minha vida em que eu me divirto mais. Quando não estou a escrever sou uma pessoa, às vezes, um bocadinho irascível e ausente. Porque não estou a escrever. Quando estou a escrever é que estou bem. São momentos de grande felicidade e realização. Ali, no momento em que eu estou a escrever e as coisas me estão a sair…
E saem sempre?
Saem. Embora este livro, Português Suave, tenha sido mais difícil. Muito mais difícil do que os outros livros.
Porquê?
Por duas circunstâncias. Primeiro, porque eu tive um AVC  há um ano e portanto a cabeça demorou alguns meses a voltar a funcionar com a mesma rapidez com que funcionava antes do AVC. Depois, porque viajei muito mais do que é suposto viajar num período em que estou a escrever. Para mim, os períodos de escrita são períodos monásticos. É um processo conventual. Estou fechada a escrever.
O escritor George Orwell identificava quatro possíveis razões para alguém escrever: o puro egoísmo (querer que se fale de si próprio), um entusiasmo estético (que ele diz ser uma motivação muito débil, em muitos escritores), um impulso histórico (querer deixar um legado para o futuro) ou um propósito político. Destas quatro razões em qual é que se encaixa melhor?
Na primeira e na terceira. O puro egoísmo, como é evidente, porque sou egocêntrica. E a terceira…
O impulso histórico?
Sim. Não exactamente no sentido de deixar um legado mas no sentido de dar um retrato da minha geração. Quando olho para o Português Suave, o meu livro que eu acho mais maduro – e que já vai ao passado, ao contrário dos outros livros, que nunca foram, sempre viveram no presente – eu acho que aquilo é um retrato de Portugal a preto e branco e a cores. Era isso que eu queria fazer. Embora eu prefira as três razões da Agustina.
Quais são?
São: uma memória prodigiosa, uma vontade férrea e a inteligência. É a combinação destas três coisas que faz um escritor.
Isso é outra coisa. George Orwell falava das motivações. Tem alguma a adicionar a estas quatro que ele identificou?
Não. Eu não escrevo por motivação. Eu escrevo por necessidade. Sempre escrevi por necessidade. Está acima de uma motivação.
O que lhe pergunto é se, nas razões para se escrever, encontra mais alguma para além das quatro do George Orwell.
Não. Não o vejo como razão. Como lhe digo, para mim, isto não é no plano racional. Para mim, escrever é no plano visceral. Eu tenho de escrever porque se não fico maluca. Se eu não escrever, o que será de mim? É que eu tenho mesmo de escrever. Por isso é que eu escrevo compulsivamente e estou sempre a fazer crónicas e estou sempre a fazer romances. Tenho mesmo de fazer aquilo.

 

"Só conseguimos arrumar o passado quando o pomos nos livros.

 

Quando lhe perguntei se tinha alguma razão a acrescentar à lista de George Orwell estava à espera que acrescentasse uma quinta alínea: uma razão terapêutica. Já falou dela por diversas vezes.
Sim, exactamente. Essa é fundamental. Importantíssima. Está espelhada em praticamente todos os meus romances e em muitas das minhas crónicas. É o processo catártico de lavar a alma e de arrumar a cabeça. De resolver enigmas e puzzles através da escrita. A parte catártica e terapêutica é importantíssima.
O que é que quer curar?
Quero arrumar a cabeça. Quero arrumar as ideias. Quero passar sentimentos a pensamentos. É sempre uma coisa dificílima para as mulheres. Mais do que para os homens. Muito mais. Para as mulheres é um trabalho hercúleo. E quero andar sempre para a frente. Eu não sou nada mística. Não sou uma crente profunda. Tanto posso estar a ler a Bíblia como posso estar a ler o Osho ou a estudar as cartas do tarô. Não professo nada, profundamente. Curiosamente, a minha carta do tarô é o carro. É a carta que significa que as pessoas têm de estar sempre a avançar.
O que é que significa ter uma carta do tarô?
Cada pessoa tem uma carta própria dos 12 decanos maiores, que representam coisas diferentes.
E como é que determinou qual era a sua?
Foi uma «taróloga» que mo determinou. Penso que é uma soma dos meus números. Os números que têm a ver com a data de nascimento, com o dia e com o mês. A minha é uma carta que significa movimento, que significa rotação. Que significa andar para a frente, às vezes de uma forma um bocado impensada ou atabalhoada. Às vezes, a atropelar um bocado o caminho. De facto, tem a ver com a minha natureza. Tenho de sentir que estou sempre a produzir coisas e que estou sempre a fazer. Com a escrita é a mesma coisa. E gosto de mudar de casa. Já mudei várias vezes porque tenho sempre objectivos diferentes.
É uma forma de recomeçar tudo, de novo?
Eu acho que nunca é recomeçar. É outra vez a escadinha. É reciclar, chegar mais longe, chegar mais longe, chegar mais longe. Tanto nos meus objectivos pessoais, como emocionais ou profissionais. Eu sou uma pessoa profundamente ambiciosa. Não escondo isso. Eu não descansei enquanto não cheguei ao milhão.
Já atingiu um milhão de exemplares vendidos?
Já cheguei ao milhão. Somando os livros nacionais aos livros estrangeiros já cheguei ao milhão. Não foi agora, já foi há uns meses. Quando cheguei ao milhão descansei. Pensei: «Agora, qual é o próximo objectivo?»
Mas pelos números publicados no ano passado, os seus livros somavam cerca de 800 mil exemplares.
Pois, mas faltam os livros lá fora. Há os livros no Brasil, há os livros na Holanda, há os livros em Itália (mas isso é pouco significativo), há os livros em Espanha, há os livros na Bélgica…
Isso, para si, é assim tão importante?
Foi. Agora já não é.
Porquê?
Como já lá cheguei… Porque eu sou muito de objectivos.
Qual é o seu próximo objectivo?
Agora, ainda não o defini. Depois do AVC as coisas mudaram muito. Percebi que era muito fácil morrer. Depois do AVC a vida deixou de ter problemas. Só existem contratempos. Portanto, as ambições já não são tão importantes. Os problemas são as coisas graves, de saúde, quando as pessoas morrem ou têm doenças degenerativas ou terminais. Isso é que são problemas. Aprendi a viver de uma maneira diferente depois do AVC. Menos ambiciosa, mais descontraída. Passei a viver muito mais o dia-a-dia porque percebi que morrer é mesmo muito fácil. É a coisa mais fácil do mundo. Nós estamos aqui e de repente já não estamos. Desaparecemos. Acho que o Português Suave reflecte isso.
Também foi um romance terapêutico?
Também. Fala nisso. Para já, há uma personagem que também teve um AVC.
A personagem central, Leonor.
Depois há outra a quem morrem várias pessoas na família… No fundo, é difícil definir quais são [as personagens] centrais.
É muito fácil: quase metade do romance é narrado por essa personagem.
Não tive essa percepção quando o escrevi. Então e os capítulos da Naná e os capítulos da Luísa?
Em 23 capítulos, nove são narrados por Leonor.
Mas na minha cabeça, a Naná ainda é mais forte que a Leonor. E a Maria Luísa é fortíssima, para mim. A Naná tem uma história de vida ensombrada por várias mortes.
A narradora principal é a que está mais próxima de si?
É. Mas isso é sempre. Quase sempre. Há sempre uma personagem feminina próxima de mim, que tem a ver com vivências que eu já ultrapassei. A Carmen Posadas é que diz que nós só conseguimos arrumar o passado quando o pomos nos livros.
É o seu caso?
É. É o meu caso.
É uma espécie de sessão de psicanálise em público?
Não é em público porque o público não me conhece. É em privado, enquanto estou a escrever.
Falo de psicanálise pública uma vez que depois é publicada.
Sim, mas isso é depois de eu já ter feito a catarse. Portanto, é-me indiferente. Já está feita. Já estou mais leve. Quando acabo um livro estou sempre mais leve. Sempre. Nem sequer tenho aquela sensação do vazio. Tenho mais a sensação do dever cumprido e de respirar fundo e de pensar: «Agora, o que é que vou fazer a seguir?» Por acaso, com este livro fiz exactamente a mesma coisa que fiz com o Pessoas como Nós e com o Diário da Tua Ausência. Comecei a escrevê-los ao mesmo tempo. Escrevi a segunda parte do Diário da Tua Ausência, que ainda não acabei, ao mesmo tempo que estava a escrever o Português Suave.
É outra carta?
É outra carta. É a continuação do Diário da Tua Ausência. Portanto, é completamente diferente do Português Suave. Para mim não é nada fácil escrever um romance. Nada. Portanto, se estiver a escrever outra coisa ao mesmo tempo, pode parecer estranho mas é mais fácil.

 

Tudo o que aparece é pensado e deliberado. Não é inconsciente. Não é uma distracção.

 


A tal Leonor, a personagem que narra a maior parte dos capítulos em Português Suave, pode ser lida como a Vera, de Não Há Coincidências, 10 anos mais tarde?
Pode. É o mesmo estilo de mulher. Ou como a Madalena do Sei lá. Elas são todas parecidas.
E são todas parecidas consigo, também.
São. São parecidas umas com as outras e foram crescendo tal como eu fui crescendo.
A coincidência entre aquilo que se sabe de si publicamente e aquilo que essas personagens são, é deliberada?
É. No caso do AVC, é público que eu tive um AVC. Eu não podia deixar de falar do AVC porque foi um marco na minha vida. Foi um ponto de viragem fundamental. Eu sou outra pessoa depois de ter passado pelo AVC. Por diversas razões: porque tive muita sorte nas circunstâncias em que sofri o AVC e porque fiquei sem sequelas nenhumas. O aspecto do AVC foi deliberado.
Mas não só: a personagem também é mãe de um rapaz, divorciada…
Eu também sou, embora o meu filho seja adolescente. Mas tenho muitas saudades do meu filho naquela idade, quando ainda era quase bebé. Recordo isso com nostalgia.
Leonor é filha de um fundador «de um partido do centro» e a Margarida já disse publicamente que o seu pai esteve envolvido na fundação do CDS.
Exactamente. E a Maria Teresa é parecida com a minha mãe, embora a minha mãe não tenha nenhuma irmã gémea. Tenho um irmão, Gonçalo, que é bom pai de família, que aparece no livro.
Também chamado Gonçalo, no romance.
Também chamado Gonçalo. Tudo o que aparece é pensado e deliberado. Não é inconsciente. Não é uma distracção.
Não teme que haja leitores seus a pensarem que é por falta de imaginação que recorre tanto à sua biografia?
Não. Todos os escritores são strippers da alma. Não sou a única.
Mas no seu caso não é a alma que faz striptease, é mesmo a personagem biográfica, porque os dados são factualmente coincidentes.
Então, e o que é que faz o Gabriel García Márquez? Não faz a mesma coisa? Exactamente a mesma coisa.
Há gente a voar em livros do Gabriel García Márquez. Não sei se haverá na vida pessoal dele.
O que é que são as Memórias das Minhas Putas Tristes?
É biografia?
Deve ser. As pessoas devem falar daquilo que conhecem. Daquilo que transpiram. Daquilo que sabem. Daquilo que viveram. Isso é que dá autenticidade à escrita. Isso é que provoca identificação com o leitor. É a vida como ela é. As vidas são todas muito parecidas. Muito, muito parecidas. Em termos de desejos e sonhos e sentimentos. Podem processá-
-los de maneira diferente mas a base é a mesma.
A imaginação tem valor literário, para si?
Tem. O que é divertido, para mim, é misturar a realidade com a imaginação. É como brincar às escondidas. Uma vez escondem-se umas coisas, outra vez escondem-se outras. Ou como uma caça ao tesouro: não se sabe o que é verdade, não se sabe o que é ficção. Os meus leitores divertem-se com isso. Nunca tive um leitor a perguntar-me se era verdade ou não. Eles não estão preocupados com isso. Eles divertem--se a tentar imaginar, na cabeça deles, o que é verdade e o que é ficção. Muitas vezes pensam que é ficção e é verdade. Outras vezes, sucede o contrário.
Explique-me uma frase que disse numa entrevista ao Expresso, aqui há uns tempos: «As pessoas compram livros da Margarida, não é da Margarida Rebelo Pinto.»
As pessoas identificam-me como uma pessoa próxima delas. Por exemplo, eu vou a um restaurante e a dona do restaurante diz: «A senhora é que é a escritora?» Não é «uma escritora». Na cabeça dela, a escrita sou eu. Para os meus leitores, a Margarida não é a Margarida Rebelo Pinto, é a Margarida. Como se fosse uma amiga deles. Tenho inúmeros e-mails – sobretudo com o Diário da Tua Ausência, que foi brutal e constituiu uma aproximação ainda maior em relação às minhas leitoras e aos meus leitores homens – porque as pessoas identificaram-se profundamente com aquele livro. De todas as idades. De todas as regiões. De todos os estratos sociais. Com os estilos de vida mais díspares que se possa imaginar. Recebi mensagens e cartas e e-mails que diziam: «Isto é a história da minha vida, isto aconteceu-me.» Portanto, eu funciono como uma amiga com quem eles conversam. Sinto isso nas sessões de autógrafos, nas apresentações públicas. As pessoas vêm falar comigo com uma enorme familiaridade. Começam a contar-me a vida delas e a dizer: «No seu livro tal e tal isto também me aconteceu, parecia que estava a ler a minha vida.» Portanto, há uma proximidade afectiva.
Acha que isso acontece por essas pessoas sentirem também que estão a penetrar, em certo sentido, na sua vida?
Não. Os leitores não têm esse espírito voyeurista. Quem tem esse espírito voyeurista são as pessoas que lêem as revistas cor-de-rosa.
Deve haver leitores seus que lêem revistas cor-de-rosa.
Claro. Até podem ter uma atitude voyeurista em relação a mim numa revista cor-de-rosa mas quando me estão a ler estão muito mais preocupados em ver o que é que aquilo tem a ver com eles. Em ver-se no meu espelho. Mais do que propriamente em penetrar na minha suposta intimidade que possa supostamente estar revelada nos livros. Eles lêem para eles. Como deve ser, aliás.
Encara os seus livros como espelhos que põe à frente de quem os lê?
Não. Eu não encaro os meus livros assim. As pessoas é que os encaram assim. Para mim escrever livros é um processo catártico. Olhe, é uma facilidade nata, porque escrevo com muita facilidade, e uma dificuldade adquirida, porque cada livro é mais difícil. É um ofício. É uma paixão. Não faço segundas e terceiras leituras daquilo que estou a realizar. Isto é o feedback que eu tenho das pessoas. É isto que as pessoas me dizem sistematicamente.
Já alguma vez usou alguma dessas histórias que lhe contam, em romances posteriores?
Não. Não de leitores. Mas, por exemplo, o internamento da avó Mercês no Português Suave por alegada loucura, quando se percebe perfeitamente que aquilo foi uma ratoeira do marido porque não se podia divorciar dela – em conluio com o próprio sogro, que ele tinha comprado – é uma história que não aconteceu mas que quase aconteceu na minha família. Com uma tia minha, afastada. O marido tentou convencer os sogros de que a mulher estava louca e queria interná-la. Ela só não foi internada porque fugiu do País. Ou seja, às vezes há histórias que eu ouço, das quais aproveito pormenores ou a mensagem última da história para a pôr nos livros.
No caso dessa história concreta, já a tinha referido também no seu romance anterior, Pessoas como Nós. Não vou ler tudo mas termina assim: «O meu pai podia ter internado a minha mãe, se quisesse. Hoje olho para trás e tenho a certeza de que isso lhe passou algumas vezes pela cabeça.»

[Margarida Rebelo Pinto faz um ar de espanto ou, como dizem por diversas vezes as suas personagens, «coloca um ar de ponto de interrogação».]

Já não se lembrava?
Não. Já não me lembrava. Qual é?

[Pega no livro para ler a página sublinhada.]

É porque eu já andava com esta ideia na cabeça. Ou seja, a ideia de escrever um livro sobre uma mulher que é internada pelo marido. Que é uma história de família, embora não muito próxima. Passou-se com uma prima afastada. Ela não chegou a ser internada. Esta história já cá andava.
Já aí andava, ao ponto de já ter estado também no livro anterior.
Exactamente. Já estava a germinar nalgum cantinho da minha imaginação e da minha memória. Mas eu nem me lembrava que tinha escrito isso. Engraçado.
Acontece-lhe muitas vezes reencontrar ideias ou episódios de livros anteriores…
Sim. Todos os escritores se repetem. Acho que todas as pessoas vivem obcecadas com os seus temas de vida e esses temas de vida, em relação aos escritores, repetem-se. Em relação aos músicos, repetem-se. Em relação aos artistas plásticos também se repetem. Há um uso obsessivo – até porque os escritores são seres obsessivos por natureza – das mesmas preocupações, dos mesmos medos.
Já alguma vez pediu autorização para usar num livro seu uma história que lhe parecia demasiado boa para a perder?
Para lhe responder a essa pergunta tinha de pensar que histórias de outras pessoas é que eu já usei. Por exemplo, no Alma de Pássaro há uma personagem que é próxima de uma amiga minha. Eu dei-lhe o livro a ler e ela pediu-me para retirar os pormenores muito personalizados. Eu retirei.

 

Há mais na vida do que ser ambicioso e atingir objectivos. Há ter tempo para a família e para os filhos. Há ter tempo para si próprio. Há saber descansar. Foi uma coisa que eu aprendi tarde. Aprender a ser feliz.


Neste livro pediu autorização a alguém para usar alguma história que esteja nele?
Não. As personagens mais próximas da realidade são os meus pais. As outras são imaginadas. A minha prima é imaginada. A minha tia é imaginada. Nunca tive uma tia assim. Gostava de ter tido uma tia assim.
Os seus pais não lhe levam a mal?
Não. Porque haveriam de levar?
Porque há quem não goste de aparecer em público.
Mas os meus pais não são iguais ao que aparece no livro. Há pormenores históricos que foram úteis para a construção destes personagens. Para lhes dar realismo e também para os contextualizar no tempo. O que é muito importante para as pessoas perceberem. Estamos a falar aqui de três gerações diferentes. Era esse o objectivo. Portanto, usei esses pormenores para fazer essa caracterização. Mas o meu pai é um homem diferente desse homem. E a minha mãe é uma mulher diferente. O mais parecido será o meu irmão. Mas é uma figura tão pacífica que não tem qualquer polémica à volta dele, enquanto personagem.
Embora haja uma questão com irmãos que não sei se será uma obsessão sua…
Na minha vida real não há nenhuma obsessão. O meu irmão sempre foi muito meu amigo. Sempre fomos muito próximos.
A descoberta de um irmão de que não se sabia a existência já era o mistério central em Não Há Coincidências…
E há o irmão que morre com um aneurisma no Pessoas como Nós. Foi um amigo meu que morreu com uma leucemia, em seis dias, quando eu tinha 14 anos. O que é curioso é que eu só à sétima revisão é que percebi que aquele era o meu amigo e tive um ataque de choro. Portanto, os irmãos podem estar a substituir os amigos e os amigos os irmãos.
Agora também há duas primas que se descobrem irmãs ou talvez irmãs.
Possivelmente irmãs. Não sabemos. Nunca saberemos. Mas isso é porque a família – enquanto instituição activa e viva, não estou a falar da instituição para o exterior – é fortíssima na minha educação e no meu universo. As pessoas mais importantes da minha vida são a minha família. Sem dúvida nenhuma. O meu filho, os meus pais, os meus irmãos, os meus cunhados. São pilares fundamentais na minha existência. Deve ser por isso que eu invariavelmente acabo por escrever histórias de família. Mesmo que isso não seja consciente. Agora olho para trás e reconheço que sim, que sempre escrevi histórias de família. Também há outra coisa que me apaixona em Portugal: é aquilo a que eu chamo o «penico». O facto de ser um país muito pequeno e das pessoas, de uma forma ou de outra estarem sempre relacionadas. Ou por via familiar, ou por trabalho, ou porque têm amigos de amigos de amigos. Esse universo muito intrincado, quase kafkiano… Quando eu digo «É uma sociedade que se espiava e que se expiava a si própria» é essa a ideia que eu tenho de Portugal. Não é a mais lisonjeira. Mas é o país que temos.
É a ideia de um universo social que a leva a descrever Cascais, como já tinha descrito em Não Há Coincidências a RTP, como um local onde toda a gente já dormiu com toda a gente.
Em relação à RTP posso-lhe garantir que era exactamente assim porque eu estive lá a trabalhar. Em relação a Cascais é uma mera percepção.
Foi formativo, para si, o período em que foi jornalista?
Foi. Aprendi muita coisa. Para já, aprendi que gostava era de fazer crónicas. Eu não era nada boa repórter. Era boa cronista. Chegava o Verão e o José Rodrigues dos Santos, que na altura nem imaginava que ia ser escritor, dizia assim: «Miúda, tu tens um dom, vai para a rua apanhar coisas.» E eu ia fazer crónicas em televisão. As imagens serviam para eu trabalhar crónicas. Fiz coisas muito divertidas. Peças de fecho do Telejornal. Isto há 20 anos era giro, agora já ninguém faz.
O José Rodrigues dos Santos já tinha algum cargo na RTP, nessa altura?
O José Rodrigues dos Santos era o meu coordenador. Eu já queria ser escritora e já falava nisso. O Zé nunca me falou nisso. Também aprendi muito sobre como as grandes instituições estão cheias de podres. A RTP, para mim… Isso é que é uma Torre de Babel. Era um lugar onde muito poucas pessoas subiam por mérito próprio. Subiam por interesses políticos, por amizades, por esquemas de cama. Enfim, por todas as razões que não as razões, quanto a mim, válidas para uma ascensão profissional.
Ficou surpreendida quando o José Rodrigues dos Santos se tornou romancista?
Não. Porque ele é uma pessoa muito ambiciosa. É como eu: gosta de objectivos difíceis. Não fiquei nada surpreendida. Fiquei muito contente.
Leu os romances dele?
Li alguns. Acho que ele é um bom contador de histórias. Não é muito profundo mas conta muito bem as histórias. Sabe agarrar o leitor. O Zé pensa muito bem. É um tipo muito claro. É um tipo muito arrumado. Coisa que os escritores nem sempre são. Os escritores são pessoas complexas, intrincadas, nem sempre muito claras. O Zé tem clareza no que escreve. O Rilke dizia, nas Cartas a Um Jovem Poeta, que a primeira qualidade do estilo deve ser a clareza. O Zé faz parte de um movimento – que não foi nada pensado e que eu acho que existiu nos últimos anos – que é o da acessibilidade à leitura.
Sente-se de algum modo precursora disso?
Sinto-me um dos escritores que fez isso.
Quem é que coloca mais nesse lote dos precursores?
A Rita Ferro, antes de mim, fez isso. O Mário Zambujal, muito antes de mim. O Manuel Arouca, antes de mim, com Os Filhos da Costa do Sol. Portanto, não sou precursora. Houve fenómenos isolados numa época em que era mais difícil esse tipo de literatura vingar. O Mário Zambujal, com a Crónica dos Bons Malandros, no princípio dos anos 80. Depois, houve outro tipo sensacional que, se tivesse publicado agora, era um bestseller e que se chama Paulo Castilho.
Com o romance Fora de Horas.
Fora de Horas e Sinais Exteriores. O Fora de Horas é um monumento. Foi muito importante para mim. Porque nessa altura eu estava a começar a escrever. Foi quando estava a ensaiar os meus primeiros romances. O Paulo Castilho e uma espanhola que é cronista e também escritora (embora nunca mais tenha escrito), a Carmen Rico-Godoy. Escreveu Como Ser Mulher e Conseguir Sobreviver e Cómo ser infeliz y disfrutarlo (este, acho que nunca foi traduzido cá). Foram livros que me mostraram que era possível escrever de uma forma fácil, escorreita. Que se podia escrever como se fala. Foram referências muito importantes para mim. E o Miguel Esteves Cardoso, claro. O maior cronista que já li na vida.
Tudo isso foi antes d’O Sexo e a Cidade?
Foi. O Sexo e a Cidade só aparece em 98 ou 99. E começa a ser transmitido na RTP a desoras. Não era um fenómeno. Só se tornou um fenómeno massificado nos últimos anos quando se começaram a vender as séries em DVD. Isto foi tudo antes. Quando apareceu o Diário de Bridget Jones, eu já tinha feito o Sei lá e já estava um passo à frente. Já estava a querer fazer outras coisas.
Quando viu O Sexo e a Cidade pela primeira vez sentiu afinidades?
Senti. Mas não senti uma grande identificação. As quatro amigas do Sei lá existiam todas na minha vida. Era um grupo de amigas mais velhas que eu tinha. Na altura, eu era bastante miúda e elas eram muito mais maduras. Tinham muito mais experiência. Mais uma vez eu fui beber à realidade e usei-as. Há uma violoncelista, que é muito bonita e que é muito tranquila, inspirada na Eugénia Mello e Castro, que é minha amiga e minha prima. Portanto, a aproximação ao Sexo e a Cidade acabou por ser muito mais tarde, quando eu acho que já não estou a fazer aquele estilo. Já estou, gradualmente, evoluindo para outra coisa.
Há pouco referiu a sua ambição e a do José Rodrigues dos Santos, que a levou a não ficar surpreendida quando ele começou a publicar. Considera a ambição uma condição sine qua non para alguém se tornar escritor?
Eu vejo sempre a ambição como uma qualidade intrínseca. As pessoas não podem é deixar-se cegar pela ambição. Porque há mais na vida do que ser ambicioso e atingir objectivos. Há ter tempo para a família e para os filhos. Há ter tempo para si próprio. Há saber descansar. Foi uma coisa que eu aprendi tarde. Aprender a ser feliz. Não sei em que livro meu é que há uma mãe que diz a um filho que ele tem é que ser feliz. Deve ser no Pessoas como Nós. Foi na altura em que eu percebi que o que eu tinha era que ser feliz. Para além de ser escritora e de me realizar profissionalmente e de me sentir bem na minha pele. Eu tinha era que ser feliz. Não era um fim, era um princípio. Mas a ambição é muito saudável. Acho que é um bom catalisador.
A que outros escritores portugueses actuais é que reconhece essa qualidade?
Eu não sei se eles são ambiciosos ou não, não os conheço pessoalmente o suficiente. Acho que por exemplo o Mia Couto, com a sua belíssima e vasta obra, será com certeza um homem ambicioso no sentido de querer deixar um fortíssimo legado de toda a realidade que ele representa. O Mia Couto é um caso. A Agustina é uma mulher profundamente ambiciosa, sempre foi. O Miguel Sousa Tavares é muito ambicioso, também. Quer como escritor, quer como tudo. Como tudo. O Miguel é uma força da natureza.
Leu os romances dele?
Ainda não li o Rio das Flores. Só li o Equador.
Ainda não teve tempo ou ainda não teve disposição?
Ainda não tive tempo. Nestes últimos seis, sete meses foi quando eu comecei a bombar a sério. Aquilo é mesmo bombar. Uso a palavra bombar mas não é por acaso. Quando o Português Suave me começou a correr nas veias, nas artérias, isolei-me um bocado e não li muita coisa.
Deixa de ler enquanto escreve?
Leio, mas leio outras coisas. Leio estrangeiros. Leio coisas para descomprimir. Leio o Murakami. É como fazer ioga. O Murakami é maravilhoso. São exercícios de ioga para a cabeça. Leio sempre muita poesia, porque para mim é um refúgio. Abro qualquer livro de poesia ao calhas e leio, releio. A Cartografia de Emoções, do Nuno Júdice, está na minha mesa-de-cabeceira para aí há três meses.
Deve abrir muitas vezes a poesia do Alexandre O’Neill, também.
Ah, isso sou obcecada. Foi o António Alçada Baptista – que foi o meu primeiro mentor, a pessoa que me disse: «Vais ser escritora, fecha-te em casa a escrever livros…» O António era muito amigo dele e cada vez que me falava dele e que se falava da poesia dele, estava a falar de um grande amigo. Contava-me histórias dele. Eu nunca conheci o Alexandre O’Neill mas é uma das minhas grandes paixões.
Cita-o recorrentemente. Neste novo romance volta a citá-lo pelo menos duas vezes.
Volto a citá-lo com «Um Adeus Português», que eu acho que é um dos mais sublimes retratos da maneira de ser e de estar portuguesa. É brutal.
É um caso curioso, porque sendo a Margarida uma escritora que recorre muito a aspectos autobiográficos nos seus livros e sendo o Alexandre O’Neill o autor daquela frase célebre de que não se deve contar a vidinha, parece haver aí um paradoxo.
Eu sou cheia de paradoxos. Ainda bem.
Decidiu, portanto, desobedecer a esse lema do O’Neill.
Nunca ninguém sabe o que é verdade e o que não é verdade. Por exemplo, as revistas sociais acham que eu sou muito reservada. Nunca falo das minhas relações, nunca digo se vou casar, se não vou casar, se é sério, se não é sério. Agora, como sou figura pública, se aparecer com alguém ao meu lado mais de três vezes é muito provável que tenha uma relação com essa pessoa. Portanto, nesta coisa que eu faço, de jogar às escondidas com o leitor, o leitor nunca sabe o que é verdade e o que não é. Nem está preocupado em saber. Ele quer ver é o que é que eu lá pus dele.
O facto de os seus dois primeiros livros terem vendido quase tanto como todos os outros que se lhes seguiram, que leitura tem para si?
Foi um boom. Apareceram numa altura em que o mercado estava agonizante e portanto foram, praticamente, uma revolução.

 

É típico em Portugal as pessoas falarem de coisas que não sabem ou que não conhecem bem. Isto é um país de vulgarólogos.

 


Quer dizer que perdeu o efeito de novidade?
Não. Não acho que tenha perdido o efeito de novidade.
Ou que os seus leitores começaram a achar que se repetia?
Não sei. Acho que houve alguns leitores que se cansaram. Houve leitores que se tornaram completamente fiéis. Depois, mais tarde, houve leitores que se tinham cansado e que eu recuperei. Neste momento, há muitos novos leitores. Eu não faço uma leitura muito clara. Nem sequer penso muito nisso.
Como pensa tanto nos números das vendas imaginei que pensasse nisso, também.
Não. Pensava no número das vendas. Agora já não penso. Agora, como já cheguei lá...
Mas se pensava…
Nem sei porque é que pensava tanto nos números. Eu não sou nada uma pessoa de números. Acho que também se criou um bocado um mito à minha volta… Dos números.
A Margarida é que fala deles.
Eu sei que ajudei a criar esse mito. Mas não sou só eu. Isso também era falado. Tem piada porque eu agora nunca mais pensei nos números. Não pensei mesmo. Mas isto tem a ver com mudanças que existiram na minha vida.
Se este novo romance vender cinco mil exemplares vai voltar a pensar nos números.
Sim. Voltaria a pensar. Pensaria porque é que não chegou a tantas pessoas. Mas isso nunca me travaria o espírito, nem me cortava as pernas para parar de escrever. Eu escreveria sempre. Viveria sempre para isto ainda que não vivesse disto. Para mim, o mais importante não é vender. Para mim, o mais importante é poder  chegar a milhares de pessoas que eu nunca vi, que se calhar nunca vou ver, e poder de alguma forma conversar com elas e às vezes sentir esse retorno.
Perguntei-lhe pela razão que estará na base da discrepância tão grande no número de exemplares vendidos entre os seus dois primeiros livros e os restantes, daí em diante, para lhe colocar a tal questão de uma eventual perda de novidade…
Quer dizer, há fenómenos que são irrepetíveis, não é? O Dan Brown também nunca mais vai conseguir vender o que vendeu com O Código Da Vinci. Nunca mais na vida. Por mais que ele se esforce. São fenómenos irrepetíveis que são o resultado de uma série de circunstâncias e de factores que não mais se voltarão a reunir.
Não tem a ver com a ideia de se estar a repetir, que…
Oh, Carlos, ouça uma coisa: todos os escritores se repetem. Você pode continuar a bater no ceguinho à vontade. É assim: você diz-me que eu me repito. E eu digo-lhe: «Todos os escritores se repetem.» O Borges disse, antes de morrer: «Todos escrevemos o mesmo livro.» Estamos a falar do pai da literatura moderna. Todos os escritores se repetem. Não me repito nem mais nem menos do que os outros. Somos todos iguais. Você lê a obra do Gabriel García Márquez, aquilo é tudo muito parecido. Lê a obra da Isabel Allende e aquilo é tudo muito parecido. A repetição faz parte. Tem a ver com o tema de vida das pessoas. Todas as pessoas vivem, mais ou menos, preocupadas com as mesmas coisas e com as mesmas obsessões ao longo de toda a sua vida. Podem tratar temas diferentes ou arranjar histórias diferentes mas as opções permanentes estão lá. Eu, por exemplo, tenho uma obsessão com a morte. É uma coisa que me assusta imenso. Assustava-me, antes do AVC. Depois do AVC mudei a perspectiva. Nos meus livros há sempre pessoas que morreram, há sempre pessoas que desapareceram. Ainda por cima isso não tem nada a ver com a minha existência pessoal. Mas é um tema que me preocupa, que me obceca.
A questão da repetição, no seu caso, tem de ser abordada, porque até já foi escrito um livro… [Couves e Alforrecas, de João Pedro George.]
Não é um livro. É um opúsculo. Nunca mais ninguém ouviu falar dele. E não tem qualquer mérito crítico. Portanto, nem sequer falo desse assunto.
Leu-o?
Sim, passei uma vista de olhos. Dois terços do livro eram frases minhas. Sabia? Só um terço é que eram vagas considerações àquilo que eu fazia. Lamento mas não pode ser considerado crítica. Aliás, nunca mais se ouviu falar desse livro. Se esse livro tivesse sido importante as pessoas teriam continuado a falar dele.
Se soubesse aquilo que sabe hoje teria dado ao caso o tratamento que deu, recorrendo aos tribunais?
Teria. Em primeiro lugar porque eu não sabia o que estava lá dentro. Tive conhecimento de que a capa era ofensiva. O meu editor sugeriu-me isso e eu aceitei.
Não se arrepende? Isso ao mesmo tempo aumentou a publicidade à volta da questão.
As figuras públicas têm sempre contornos mais ou menos simpáticos: há sempre os seguidores e há sempre os detractores. Esse episódio serviu para perceber, por exemplo, quem é que na imprensa dita cinzenta e séria se serviu disso para me tentar deitar abaixo. Foi uma grande lição.
Quem foi?
Agora já nem me lembro quem foi mas na altura reparei que alguns meios de comunicação aproveitaram esse embalo para me criticar ou para dar uma imagem negativa de mim. Tomaram partido. Isso eu percebi. Que eu me repito! Quer dizer, o autoplágio é uma coisa que não existe em nenhum compêndio de literatura. Em Portugal, há a mania de dar importância a não-assuntos. Para mim, isto é um não-assunto porque aquilo é uma não-crítica. Carlos, aquilo é uma não-crítica. Aquilo não é uma crítica válida ao meu trabalho.
Ele diz que há parágrafos integrais transpostos de uns livros para outros.
Não é verdade.
Ele dá exemplos de parágrafos que estão…
Têm ideias parecidas.
Não, há um caso pelo menos que é ipsis verbis.
So what?
Isso é o que eu lhe pergunto a si.
Não. E qual é o problema? Diga-me um escritor que nunca se repetiu. E depois passe para a pergunta seguinte, se faz favor, que eu já estou farta desta. Estou farta deste assunto. Se você quiser acabar a entrevista já aqui, acaba-se já a entrevista aqui. Esse assunto é um não-assunto, Carlos.
Se há um autor que tem parágrafos…
Então, diga-me, qual é o autor que não se repete?
Não se trata de uma repetição de ideias. É a repetição de um parágrafo integral, copy/paste, de um livro para outro.
Nunca fiz copy/paste. Oh, Carlos. A entrevista acabou, desculpe…


[Margarida Rebelo Pinto lança a mão ao gravador, desligando-o. Ligo-o, de novo, imediatamente.]


Qual é o problema das pessoas se repetirem nos seus livros? Se todos se repetem porque é que só dizem que sou eu que me repito? Porque é que está a insistir tanto nessa tecla? Já lhe disse: quais são os escritores que não se repetem? Olhe o Murakami, em que os livros são todos tão parecidos. Aí está um grande exemplo.
Não estávamos a falar de uma repetição de ideias. Mas, pronto, vamos passar ao assunto seguinte. Qual foi a crítica mais justa que sente que já lhe fizeram?
Já não há entrevista. Diga ao Francisco [José Viegas, director da LER] que eu dispenso a entrevista. Não estou com onda para fazer uma entrevista assim. Desculpe lá.
As entrevistas são feitas de perguntas e de respostas.
Você ainda não me fez uma única… Fez-me uma pergunta sobre o meu novo livro.
Esta é uma entrevista de carácter geral, sobre o seu percurso. Aliás, foi avisada disso.
Eu acho que você está a conduzir isto muito mal.
Isso cabe aos leitores determinar.


[Longa pausa.]


Pronto, então vamos continuar a entrevista. Faça-me lá a pergunta.
Qual foi a crítica mais justa que já fizeram àquilo que escreve?
Foi a Luísa Melid-Franco quando disse que eu fazia bem o jogo de espelhos.
Eu não disse crítica no sentido de crítica literária mas de alguma coisa que lhe tenham criticado por não estar bem.
Várias. Por exemplo, a Patrícia Reis, que me ajuda a rever os meus livros faz-me sempre uma lista dos bordões de linguagem que eu tenho de limpar. Isso é uma crítica muito importante. Para o livro sair o mais puro possível e o mais limpo possível.
Ainda sente que há pouca atenção da crítica aos seus livros?
Não.
Houve uma altura em que dizia que a criticavam sem a ler.
Isso é muito provável. É típico em Portugal as pessoas falarem de coisas que não sabem ou que não conhecem bem. Isto é um país de vulgarólogos. Toda a gente sabe falar sobre todos os assuntos. Quando os jornalistas me pedem para eu comentar assuntos que eu desconheço ficam muito espantados porque eu digo: «Não conheço o suficiente sobre esse assunto e portanto não falo sobre ele.» Neste país toda a gente opina sobre os assuntos que conhece e que não conhece.
Sente que é isso que acontece em relação aos seus livros?
Acho que essas questões estão completamente ultrapassadas. Há as pessoas que gostam e as pessoas que não gostam.
Sente-se vítima de alguma incompreensão no meio literário?
Só se sente vítima quem quer ser vítima. Eu nunca sou vítima. Nem nunca sou carrasco. Incompreendida por quem? Mas quem é o meio literário? Há quórum? Tem massa crítica?
Pergunto-lhe isto porque em 2005 falava numa «tirania cultural»…
Existia.
E já não existe?
Não sei se continua a existir ou não. Não mais se manifestou. Criou-se uma ideia feita de que os meus livros eram literatura light. Pronto. Foi uma ideia feita. A tirania cultural de quem pensa que faz a opinião pública – que não é a mesma coisa do que a opinião publicada, mas quem publica opinião vive nessa ilusão – consiste em dizer que as pessoas só devem ler determinadas coisas. Eu nunca andei com uma arma apontada a obrigar as pessoas a comprar os meus livros. As pessoas compram porque querem. Quando a tirania literária diz que um livro não é bom, que direito é que tem para dizer se é bom ou não é bom? Nos outros mercados sempre existiram todos os tipos de literatura e sempre foram respeitados.
Acha que as coisas seriam diferentes se não tivesse vendido quase 200 mil exemplares dos seus dois primeiros romances?
Seria. Teria sido mais pacífico. O que sacudiu o mercado foram os grandes números e as grandes mudanças. Portugal não está habituado a mudanças. Resiste sistematicamente a mudanças. Resiste sistematicamente a grandes números. O mercado abanou. Mas mais importante do que o mercado ter abanado é que o mercado ressuscitou. Com os meus livros e com muitas outras coisas. Houve coisas muito mais importantes. Aconteceram todas ao mesmo tempo. Saramago ganhou o Nobel, abriram as FNAC, os livros foram parar aos hipermercados. As pessoas que não liam começaram a ler. As pessoas que iam ao hipermercado passaram a comprar o azeite, as salsichas, o pão e os livros. Isso era uma coisa impensável há 15 anos. Isso, acho que é uma conquista irreversível. Não sei quanto tempo é que vai  durar mas é uma conquista irreversível.
Continua a partir sempre de um conceito para cada um dos seus livros?
Sempre. O conceito do Português Suave é: aquilo que não se sabe nunca aconteceu. Há segredos numa família, que são desvendados por mero acaso, mas no fim toda a gente acaba por perceber que o melhor é não agitar as águas. Quer dizer, as pessoas acabam por compactuar com uma situação que lhes parecia intolerável.
Essa ideia de partir sempre de um conceito ainda é uma herança da sua passagem pela publicidade?
É.
A Margarida continua a ter sempre uma palavra a dizer no marketing dos seus livros?
Tenho. Em tudo, tudo, tudo.
Passa tudo por si?
Tudo. Todo o material é imaginado, concebido  aprovado em conjunto.
Não dispensa esse aspecto da questão?
Não. Não, porque também é uma grande paixão minha. Eu acho que um livro tem de ser um produto muito bem cuidado. Tem de ser tudo coerente: a escolha do lettering, a escolha da capa, as imagens, a fotografia da contracapa, o excerto. Tudo tem que funcionar como um todo. Gosto muito desse lado. Ainda há pouco tempo fui chamada por uma agência de publicidade para participar numa campanha publicitária. Não ponho de lado o meu espírito de copy e de publicitária. Não o utilizo neste momento em campanhas mas encaro cada saída de um livro meu como uma campanha.
O marketing faz muita diferença para um livro?
Faz. Faz muita diferença porque as pessoas ligam cada vez mais ao aspecto visual. Seja de que produto for. Portanto, a embalagem é muito importante. Pode tornar um livro mais ou menos apetecível. O Diário da Tua Ausência ganhou muitíssimo com a imagem de diário, com o lacinho e com os cantos… A ideia nem sequer foi minha. Trabalhámos muito. Eu passo dias e dias na editora depois de ter um livro pronto.
Portanto, para si um livro não é feito só no momento da escrita.
Para mim, não é. Mas eu tenho esta particularidade enquanto escritora. Tenho a vertente de publicitária. Gosto muito da vertente de imagem. Preocupo-me com isso.
Essa vertente da imagem, associada à literatura, não corre o risco de desvirtuar a essência das coisas?
Porquê? As pessoas demoram um segundo a olhar para uma fotografia e três ou quatro ou cinco dias, ou uma semana, a ler um livro. O que é que prevalece? É o que está dentro do livro. Se a imagem fosse predominante eu vendia posters, não vendia livros.
Já não sei bem em que livro seu cita uma frase de Sam Shepard: «Esta gente já é a gente que finge ser.»
Crónicas Americanas. Livro oferecido não sei se pelo António Mexia ou pelo Pedro Paixão. Foi o António Mexia.
O ex-ministro das Obras Públicas?
O ex-ministro. Ofereceu-me esse livro há muitos anos. Nunca mais me esqueci dessa frase. Até porque depois essa ideia foi retomada pelo Almodóvar num dos seus filmes. Mas porque é que me estava a perguntar por essa frase?
Porque é uma frase sobre o triunfo da imagem.
Exactamente. Ele está a falar das pessoas de Los Angeles. Que ele aliás detesta.
Por isso lhe perguntei se não existe o perigo de qualquer coisa se desvirtuar.
Não. Acho que não. Acho que o que as pessoas retêm são as coisas que eu digo nos livros. Pelo menos é disso que elas me falam.
O sucesso mudou-a de alguma forma?
Claro que mudou. O sucesso muda sempre.
O que é que mudou?
Mudou um bocado a minha visão do mundo. O sucesso adquire-se com trabalho e com mérito. É altamente frágil. É um bem perecível. Pode durar menos do que um quilo de cerejas ao sol.
 



© publicado pela Ler às 09:46
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Nuno Crato escolheu os 5 livros que nos ajudam a gostar de Matemática



Conceitos Fundamentais da Matemática
Bento de Jesus Caraça, Gradiva
Para aprender Matemática, há um clássico dos anos 40 que merece sempre ser lido e relido. É um livro que pode ser lido como um romance, se o leitor estiver disposto a saltar alguns passos mais complicados ou a compreender menos bem alguns conceitos. Mas é uma obra que ganha em ser lida com papel e lápis ao lado, pois assim torna-se num professor gentil que ajuda o leitor a penetrar em muitos dos segredos fundamentais desta bela disciplina.

Matemática e Ensino
Elon Lages Lima, Gradiva
O livro deste mestre brasileiro trata uma colecção de tópicos e não pretende, como o trabalho de Caraça, progredir sistematicamente, dando uma visão de síntese da Matemática. Nem por isso é menos interessante. A inteligência e humor de Lages Lima transformam todos os seus textos em pérolas inesquecíveis.

O Fim do Mundo Está Próximo?

Jorge Buescu, Gradiva
Buescu consegue tornar fascinante tudo aquilo sobre que escreve. O seu livro mais recente, publicado há cerca de um ano, é uma colecção de textos sobre problemas matemáticos muito diversos, desde a actividade do grande Leonard Euler até à matemática do sudoku.

Como Resolver Problemas Matemáticos
Terence Tao, Texto Editora
Para os amantes de desafios, recomenda-se talvez o matemático mais brilhante da actualidade. Este pequeno volume constitui uma iniciação saborosa a muitos tópicos de matemática elementar usados na resolução de muitos problemas típicos. É um livro precioso para os concorrentes às Olimpíadas Portuguesas de Matemática.


A Conjectura de Poincaré
George Szpiro, Gradiva
Relato fascinante dos personagens e das aventuras que rodearam um dos maiores desafios matemáticos de sempre. Durou um século e teve um desfecho surpreendente em 2003. Enquanto nos relata a vertente humana e científica desta batalha, o autor consegue levar-nos ao cerne dos conceitos matemáticos.
 



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Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
«TRÊS HISTÓRIAS PARA ELOGIAR O CONTRABANDISTA AVENTUREIRO»

Depois de A Ponte Submersa, Manuel da Silva Ramos prepara um livro ainda sem título cujo pano de fundo é a zona da raia entre Vilar Formoso e Espanha envolvendo contrabandistas e emigrantes em África e na Europa.

 

|| Texto de José do Carmo Francisco

 

«O meu livro mais recente foi A Ponte Submersa [Dom Quixote], romance sobre o assassinato de três jovens raparigas de Santa Comba Dão por um cabo da GNR. Teve algum impacto mediático, mas não crítico. Isto é um paradoxo, mas no fundo já estamos habituados: temos uma crítica literária rarefeita. O nosso último crítico literário foi o Óscar Lopes. Recordo o Torcato Sepúlveda, um espírito superior cuja morte recente nos deixa mais pobres. Era um crítico certeiro, culto, informado, um espírito aberto. Foi o único que se referiu ao meu Adeusamália e Coisas do Vinho [Fenda].
«A Ponte Submersa é coerente com os livros anteriores, no qual desmistifico a sociedade portuguesa e ataco a GNR, uma organização arcaica, prepotente e privilegiada. Mas não é só isso. É também o elogio da ecologia e do rio Mondego. Tem uma originalidade: o narrador é a chuva. Tal permite-me meter dentro do espírito da chuva e narrar a história à minha maneira.
«Estou agora a acabar um romance cujo pano de fundo é a raia entre Vilar Formoso e Espanha, nos anos 50. Além dos contrabandistas há os emigrantes que passavam a salto. Eu próprio passei a salto. Tal como no livro anterior, entra uma parte de investigação (30 por cento) e outra de imaginação (70 por cento). Há três histórias, cada uma com cem páginas. Há o contrabandista dos anos 50, há o emigrante africanista que se torna muito rico e amigo do Presidente da República de um país africano e há a história do meu primo: saiu de Portugal de uma família pobre e tornou-se um dos grandes distribuidores de cinema em França e na Europa, um emigrante com uma excelente posição social. São três histórias muito ligadas entre si. É o elogio do emigrante e do contrabandista aventureiro que conseguem ter sucesso na vida partindo de situações muito pobres e quase marginais.
«Creio que é um livro subversivo e transgressivo. Quem o ler irá descobrir como. Ao nível da escrita e da construção, tem muito de inovador. Andei por aldeias da raia falando com pessoas, descobrindo paisagens, percorri caminhos muito velhos junto à fronteira de Espanha. Fiz o meu trabalho de campo. O romance ainda não tem título, ando à procura de um sugestivo. Não posso esquecer que fui emigrante, exilado político, refugiado em Paris. Depois estive em Toulouse e não só. É um livro que me é muito caro e muito próximo. Entretanto, sairá uma reedição de Os Três Seios de Novélia, Prémio de Novelística Almeida Garrett em 1968, instituído pelas editoras Inova e Portugália Editora.
«Nasci em 1947 na Covilhã. Foi lá que fiz os meus estudos liceais. Frequentei a Faculdade de Direito de Lisboa mas ao fim de quatro anos exilei-me em França para fugir ao fascismo. Escrevi três livros em parceria com Alface [João Alfacinha da Silva]: Os Lusíadas [1977], As Noites Brancas do Papa Negro [1982] e Beijinhos [1996]. Regressei em definitivo a Portugal em 1997, depois de 27 anos de exílio. Com o apoio da bolsa de criação atribuída pelo Ministério da Cultura publiquei quatro livros em 1999: Portugal, e o Futuro?, O Tanatoperador, Adeusamália e Coisas do Vinho. Em 2000, depois de uma investigação em Moçambique, saiu o meu romance mais ambicioso: Viagem com Branco no Bolso. Dois anos depois, Jesus, the Last Adventure of Franz Kafka, escrito em Praga com o apoio de outra bolsa de criação literária. Em 2003 criei no café Montalto uma Factoficção sobre a minha cidade natal e o mundo dos têxteis. Ambulância e O Sol da Meia-Noite seguido de Contos para a Juventude antecedem A Ponte Submersa. Continuo a ter muitos textos inéditos.» |



© publicado pela Ler às 16:24
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Faca de Seda – Crónica de Filipe Nunes Vicente

Elogio do parasita


Estive para intitular esta crónica como «A arte de viver». É um título estúpido. Por que razão haveremos de fazer da vida uma arte? Se pensarmos em todos os que morreram à nascença (um qualquer caixote de lixo)  ou em todos os que morreram para que outros não nasçam (Auchswitz), onde está a arte? A arte pode estar em evitar, em fugir da vida, não propriamente em viver.
Pietro Gerbore, diplomata, escritor, memorialista e gourmet, escreveu um livro admirável sobre a evasão: Una storia dell’arte de vivere (Fógola, Turim, 1985). É um livro sobre como se esteve à mesa: nos últimos 25 séculos mas com atenção especial aos últimos cinco. Como se esteve à mesa, não exactamente – ou não apenas – o que se comeu e como se comeu. Estar à mesa é um campeonato onde não falta a memória das velhas glórias: os que connosco cresceram, os que nos criaram, os que nos faltam. Mas estar à mesa é também uma pausa na vida e é, nesse sentido, uma fuga à vida.
Quando preparamos à pressa uma refeição imberbe que há-de ser mastigada entre berros e rosnadelas e rematada com o amargor que sempre sobra de um casamento gasto (e nem se aproveita para açorda), não estamos à mesa. Quando trocamos o prazer de estar e de provar pelo de ganhar, também não estamos à mesa (talvez do  Orçamento Geral do Estado mas isso é outra loiça).
Gerbore vai buscar uma carta que Bernardin de Saint-Pierre escreveu à mulher em Agosto de 1793. Havia fome em Paris, um pedaço de pão suscitava mais inveja do que o sucesso de uma ópera entre os escritores e toda a hospitalidade era suspeita. Esta última frase é terrível, porque a mesa é a hospitalidade. À mesa, antigamente, sentava-se o parasita (para sitos) – «o que está ao lado da comida». Bons tempos esses em que o parasita era um hóspede. Já lá iremos.
E vamos jantar com Sófocles. Édipo, cego, velho e amaldiçoado,  chega a um prado verdejante. Caminha amparado por Antígona e calculo que esteja esfomeado. Uma tira de queijo, uns figos e um pouco de água fresca bastariam para o sossegar. Cheira-lhe a loureiro, vinha e oliveira. Antígona abraça as muralhas com os olhos. É a teichoskopia invertida. Em vez de ver de cima das muralhas o exército sitiante, Édipo vê (através dos olhos da filha) de baixo as muralhas que guardam os hospedeiros. O hóspede e o hospedeiro presos na mesma raiz: Ghostis, estrangeiro (guest); hosti-postis (hóspede), «senhor dos estrangeiros». Afinal estão todos sitiados.
Quem chega à mesa com fome e com sede e não é esperado, o que pode esperar? Os Anziani, conta Gerbore, administraram Bolonha entre 1530 e 1576. Ficaram famosos os banquetes oferecidos a Cristina da Suécia e a Maria Casimira da Polónia. Os convidados atravessavam um átrio de cujo tecto abobadado pendiam limões e uvas. A sala de refeições simulava uma montanha encimada pela estátua dourada de Felsina; na base, 66 couverts e 24 açucareiros de prata aguardavam os comensais. Excessivo na forma, correcto na essência.
Mesmo os homens duros da vida dura apreciavam – e apreciam – o prazer de estar à mesa com os amigos. Uma semana inteira na fazenda, pasto para aqui, gado para acolá, sachar, podar, sulfatar, mais ou menos tractor e ao domingo, depois da missa e do almoço familiar, uma tarde na adega. Nos bons tempos, umas lascas de bacalhau cru, salgado como o mar, broa, uma picheira de tinto e, claro, uma pausa.
Esta pausa na vida que se tem de ganhar, seja a da sedução política seja a da jorna monótona e ressequida, é mesmo uma evasão. Conta muito a forma como se prepara esta evasão, como nos evadimos e como acolhemos os evadidos.
Na adega ou com os Anziani, a mesa é a arte da fuga. Se o estrangeiro chegar inesperadamente fugido de qualquer lado, transforma-se num parasita: alguém que come ao (nosso) lado. E passa ser um  hóspede por obra e graça da pura alquimia gastronómica.
 



© publicado pela Ler às 16:20
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Os livros de Zé Pedro

Zé Pedro, guitarrista dos Xutos e Pontapés, partilha os 9 livros que lhe dão música

Moonage Daydream – The Life and Times of Ziggy Stardust
David Bowie e Mick Rock, Genesis Publications Limited

Consegui comprar o livro 1087 (a tiragem mundial foi de 2500), numerado e assinado por David Bowie. Com a lombada em prata, contém fotos inéditas e pessoais, assim como a maior parte dos documentos, rascunhos, planos, contratos, apontamentos, alinhamentos e tudo o mais que rodeou a vida deste personagem inventada por Bowie.

According to The Rolling Stones
Coordenação de Dora Loewenstein, Weidenfeld & Nicolson

Coordenada por Dora Loewenstein, deste sempre ligada aos Stones, e supervisionada por Charlie Watts, é uma biografia estruturada através de depoimentos dos músicos da maior banda de rock ‘n’ roll do mundo.

Scar Tissue
Anthony Kiedis com Lerry Sloman, Ediouro (edição brasileira)

Anthony Kiedies, é o vocalista da banda californiana Red Hot Chili Peppers, com uma vida de altos e baixos impressionante. A ler, não só por amantes de rock.

Mate-me por Favor
Legs McNeil e Gillian McGain, L&PM (edição brasileira)    

Livro que conta, na primeira pessoa, a história do punk em Nova Iorque. Estes dois jornalistas musicais fizeram uma recolha impressionante de depoimentos e montaram esta narrativa, a contar tudo o que envolveu a Blank Generation.

Bono por Bono
Michka Assayas, Ulisseia

Durante alguns anos, Michka foi mantendo conversas com o vocalista dos U2. É muito bom de ler e de se perceber todo o trabalho musical e as grandes causas sociais em que Bono honestamente se envolve.

Contigo Torno-me Real
Rui Pedro Silva, Afrontamento

Rui Pedro é um fã e grande especialista do grupo The Doors e fez uma recolha magnífica – única no mundo – sobre esta banda da Califórnia. Reconhecida e aplaudida pelos principais responsáveis e músicos sobreviventes desta tão grande banda de culto. Pena não atribuírem a este pesquisador português a importância que merece.

The Essential Rock Discography
Martin Strong, Canongate

Bastante actual (até 2007) e de muito boa consulta, aconselhado a todos os que gostam de seguir as bandas de rock.

Retrovisor
Nuno Galopim, Assírio & Alvim

Escrito pelo jornalista Nuno Galopim a partir de longas conversas com Sérgio Godinho. Sem dúvida a melhor biografia sobre a carreira de um músico português. Livro muito bem apresentado.

Não Sou o Único
Helena Reis, Presença

Uma das minhas irmãs escreveu sobre a família, onde a figura principal sou eu. Considero isto uma prova de amor.



© publicado pela Ler às 10:35
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«A identidade nacional é fundada na beleza e na força da língua»

Depois do premiado Em Terra de Homens, o escritor Hisham Matar prepara o segundo romance. Falámos com ele em Londres. Sobre tudo.


Susana Moreira Marques, em Londres


Hisham Matar é um gentleman que avança charmoso, tira o casaco, serve uma bebida e escolhe o canto mais luminoso de um clube privado no elegante bairro de Mayfair.
O cabelo torna-o inconfundível, mas os leitores, esclarece, estão sempre a tentar imaginá--lo. Como se fossem espiões. Quando terminam a última página da história do pequeno Suleiman, convencem-se de que sabem alguma coisa sobre Hisham Matar, algo mais do que vem publicado na contracapa ou na badana do seu primeiro livro, In the Country of Men (Em Terra de Homens, edição portuguesa da Civilização): quatro linhas, não mais do que isso, onde se lê que nasceu em Nova Iorque em 1970, filho de pais líbios, passou a infância em Tripoli, depois no Cairo, e vive em Londres desde 1986.
O seu primeiro livro, seleccionado para o Man Booker de 2006 e vencedor do Guardian First Book Award, não é um acto de vingança contra o regime de Kadhafi. Um livro é um livro e um homem «escreve aquilo que tem que escrever».
 

A propósito da feira do livro de Londres, o suplemento literário de The Guardian publicou opiniões de vários escritores [entre eles, Hisham Matar]. O palestiniano Mourid Barghouti dizia ironicamente que «nenhum escritor ou escritora ocidental questiona a sua universalidade; são os árabes, os africanos e os asiáticos que devem aspirar a esta universalidade».
Existe essa expectativa. Pressupõe-se que um escritor do chamado «Terceiro Mundo» escreve sobre o particular, por exemplo, como é estar nas ruas de Bombaim ou do Cairo ou de Tripoli... Mas um escritor italiano ou inglês ou americano pode ser universal.
Pode até escrever sobre as ruas de Bombaim ou do Cairo ou de Tripoli.
Exacto. As pessoas esperam muitas coisas do que, ridiculamente, o mundo editorial aqui chama «notícias de outras partes». Mas penso que muitas dessas expectativas são imaginadas. Nós continuamos a tentar adivinhar o que os outros pensam – tal e qual como os amantes –, como se o acto de adivinhação provocasse a realidade. Acho que é preciso ser cuidadoso: às vezes, as expectativas são reais mas outras vezes são imaginadas. Reais ou imaginadas, o importante é não esquecer que são convites ao artista para se comportar de determinada maneira. Recentemente, conversava com um cineasta do Burkina Faso e ele explicava-me que o financiamento vem de França e que, quando propõem ideias, os investidores franceses ficam entusiasmados com as propostas que vão ao encontro das ideias que têm do que se supõe ser um filme africano. Claro que este é um caso extremo, porque ele sem esse financiamento não pode fazer filmes e eu posso sempre escrever livros. Mas em ambos os casos existem convites para nos comportarmos de determinada maneira. Eu tenho de lembrar-me disto. Creio que a verdadeira elegância – e é a isto que os artistas deviam aspirar – é não se deixar afectar. Não reagir contra nem cumprir a expectativa. Não vou chegar a um extremo e escrever o livro mais inesperado, mas também não vou escrever o livro que esperam que eu escreva. É complicado. Tudo isto precisa de silêncio.
E quanto a outro tipo de pressão, a do sucesso? In the Country of Men foi um livro extraordinariamente bem aceite, sobretudo para um primeiro romance. Imagino as expectativas em relação ao segundo.
Há qualquer coisas de maravilhoso em escrever o primeiro livro. É um segredo. Ninguém sabe e ninguém espera nada de ti. Agora, estou a passar por uma experiência diferente. Toda a gente pergunta: «Como vai o livro?» Respondo um pouco com o mesmo tipo de trivialidade com que se responde a um «Como vai?»: «Tudo bem, e você?»  De qualquer forma, quando me sento para escrever, tudo isso desaparece, as expectativas e até as realizações. Não me sinto mais confiante do que da primeira vez.
Continua a ser um segredo?
Sim, e continua a ser difícil, e continuo a duvidar.
Numa sessão realizada no âmbito da feira do livro de Londres, confessou que quando chegou à livraria Foyles e viu anunciado o evento como uma noite com «escritores árabes» se sentiu um pouco como um impostor.
Fico muitas vezes desorientado. É como um zoom de uma câmara: às vezes chega extremamente perto, outras parte para muito longe. Nalguns momentos, sinto-me muito próximo dos escritores árabes – eles tratam-me de forma tão calorosa, abraçam-me de facto –, mas ao mesmo tempo sinto que não sou um deles. E tenho o mesmo problema em relação aos escritores ingleses meus amigos. Estou num limbo. E isso, na verdade, talvez seja uma escolha.
Num texto que publicou no Guardian, recordando a visita que fez, no Cairo, ao Nobel egípcio Naguib Mahfouz, conta que lhe perguntou: «Como vê os escritores como eu, árabes que escrevem em inglês? Pertencemos à literatura árabe ou à literatura da língua em que escrevemos?» A resposta de Mahfouz foi: «Um escritor serve a língua em que escreve.» [Convirá referir que Mahfouz acrescentou: «Mas agora quem se importa de onde era o Shakespeare?»] Onde é que pertence?
Podia responder a essa pergunta com esperteza. Poderia dizer, por exemplo, que a minha língua é inglesa mas o meu coração árabe. Mas julgo que isso seria uma forma de não responder à pergunta. Não sei. Lembro-me de que uma vez acordei a meio da noite e disse qualquer coisa à minha mulher e falei em árabe. Não estava a dormir nem a sonhar e a minha mulher não fala árabe. Foi uma surpresa para mim. Fez-me sentir que, num nível inconsciente, ainda estou a funcionar na língua árabe. Num nível ainda mais profundo do que o dos sonhos – sonho em inglês a maior parte das vezes – há esta corrente árabe a passar pela minha consciência, pelos meus pensamentos. Quanto à questão da nacionalidade, quando as pessoas me perguntam de onde sou, digo que sou líbio mas estaria a mentir se o dissesse sem reservas. Porque não sei quão factual ou verdadeiro isto é. Digo-o simplesmente porque é a forma mais simples de responder, para não ter de explicar que não sei. E também porque o meu pai ficaria agradado por me ouvir dizer que sou líbio.
As situações dos desaparecimentos políticos que se vivem em In the Country of Men repetem-se em tantos outros países, é fascinante... Desculpe, se calhar escolhi mal a palavra para falar de desaparecimentos políticos.
Não, não, também é fascinante para mim. Interessa-me sobretudo quando se trata dos pais. Porque, parece-me, procuramos nos pais sinais para encontrarmos o nosso lugar no mundo. Portanto, quando eles não estão lá,  quando foram capturados, silenciados, eliminados ou qualquer outra expressão que se queira utilizar, essa procura é muito mais intensa. Para Suleiman, a sua procura existencial é baseada nesta experiência.
Há um capítulo no livro que descreve a ansiedade de Suleiman quando a polícia política vai interrogar a mãe dele a casa. Suleiman entra numa obsessão com as provas: como provar que é filho dela? Que a mãe é a sua mãe?
É o que acontece quando temos um olhar de escrutínio sobre nós todo o tempo. Em Londres, sentimos isso de alguma forma, com as câmaras de vigilância a olhar para nós. Na situação extrema pela qual Suleiman e a família estão a passar, o escrutínio por parte do Governo é tão intenso que a paranóia deles sobre a própria inocência torna-se palpável. Cresci ao lado de pessoas que estavam continuamente a tentar demonstrar a sua lealdade para com o regime. Por exemplo, aproveitavam para fazer elogios em voz alta quando sabiam que estaria alguém a ouvir. Ninguém os acusou, mas ainda assim precisam de provar a sua inocência. Isto corrompe, é terrivelmente corrosivo. Pelo que conheço da Líbia, não vejo no horizonte os líbios a pararem para pensar: ok, isto é algo que precisamos de resolver, temos de olhar para nós e perceber porque é que isto aconteceu.
Tem o desejo de voltar a viver na Líbia?
Viver, não sei. Um passo de cada vez. Para já, gostava de ir lá molhar os pés na água. Quando chegar a altura certa vou ver a nossa casa antiga, a nossa rua e o mar onde costumava nadar.
Londres é uma boa cidade para o exílio?
Já tentei fugir duas vezes e não fui bem sucedido.
Agora, tem uma voz. Ou melhor, como autor conhecido, tem a oportunidade de ser ouvido.
A resistência líbia ficou deliciada, não queriam acreditar na sorte deles, era como se tivessem ganho a lotaria. O meu pai é um destacado dissidente, era talvez o líbio mais famoso fora da Líbia, e agora o filho deste homem escreve este livro que ganha prémios... Defendo aquilo que eles defendem mas não faz parte da minha forma de estar pertencer a uma organização política. A primeira tentação foi ficar completamente silencioso – escrever o livro e não dizer nada. Mas como cidadão sinto uma certa responsabilidade. É o mínimo de decência, não é? Testemunha-se um acontecimento e depois vem alguém que nos aponta um microfone e nós dizemos: «Está um lindo dia»? Não, há que dizer: «Sim, está um lindo dia mas olhe que eu vi isto a acontecer.»
Li o artigo autobiográfico que escreveu no Independent sobre o facto de desconhecer o paradeiro do seu pai. Continua a ter esperança de que ele esteja vivo?
Sim.
Nunca escreveu em árabe? Não pensa vir a escrever?
Quando era criança costumava escrever pequenas peças de teatro e actuar para a minha família. E também poemas, sobre as férias e coisas assim. Os meus pais transferiram-me aos 12 anos para o ensino em língua inglesa. Aos 15 anos vim para um colégio interno no Reino Unido. Poderia ir três anos para o Cairo e estudar só para começar a escrever em árabe, mas não vou fazê-lo. Porquê?
«O poeta sírio Nizar al-Qabbani, que viveu e morreu em Londres, mas que nunca abdicou da língua árabe, disse dos escritores árabes que, por se terem exilado quando ainda eram muito jovens, escreviam noutras línguas: aos olhos dele, nós éramos como cavalos selvagens – indomáveis, belos, mas perdidos.» É uma citação sua. Sente-se como um cavalo selvagem?
Os árabes têm tanto orgulho na sua língua. É o milagre deles. Pelo menos, é como vêem a língua. Cristo possuía o dom da cura, Moisés a magia e Maomé o milagre da linguagem. Cresci com o poder da linguagem do Alcorão. É muito poderoso, inebriante até. A identidade nacional é fundada na beleza e na força da língua. Portanto, os árabes amam a sua língua e tendem a ser oradores extraordinários. Fui educado numa casa em que as pessoas contavam histórias e recitavam poesia. Por isso, sinto-me um pouco como um traidor. Como se tivesse partido e estivesse a descomprometer-me – e talvez esteja. E talvez precise de o fazer para escrever o que quero escrever. O comentário de al-Qabbani é um elogio crítico, uma faca de dois gumes. Na imaginação humana, os cavalos selvagens são livres e independentes mas também indisciplinados. Ele estava a dizer-nos que somos belos mas também que nos separámos do grupo: tornámo-nos selvagens e andamos a fugir sem destino, correndo por correr.



© publicado pela Ler às 10:26
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