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Terça-feira, 8 de Julho de 2008
Biblioteca Fútil: Boa Vontade

Pedro Mexia


«Leiam isto: 'Desde a sua nomeação como embaixadora da Boa Vontade, Angelina mais do que satisfez as minhas expectativas.' Ainda está a pensar em vítimas de guerras ou de perseguições? Obviamente que não, estamos a pensar em Angelina a 'satisfazer expectativas', com facas e fufices. O título de embaixadora da Boa Vontade é aliás todo um programa.»

 

 

A estética é uma distracção. A princesa Margarida fez tantas acções humanitárias (ou mais) que a princesa Diana; mas a princesa Margarida tem (cito) «cara de cavalo» e ninguém liga nenhuma.

Angelina Jolie é muitíssimo dada a acções humanitárias, geralmente em forma de adopções, mas também é um símbolo sexual de lábios carnudos. E isso distrai da leitura sisuda de Notes from My Travels (2003), editado em português pela Casa das Letras. Este Diário das Minhas Viagens – Visitas Humanitárias em África, no Camboja, no Paquistão e no Equador chama a atenção porque é de uma estrela de Hollywood mas sobretudo porque é de uma bomba sexual. Imaginam alguém a querer ler o diário de Kathy Bates no Camboja?

De facto, em Notes from My Travels nunca nos esquecemos que Angelina é uma pessoa com quem gostávamos de fazer coisas não necessariamente humanitárias. Quando o ex-alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Ruud Lubbers, apresenta o livro, ele próprio pensa em sexo o tempo todo (tanto que se demitiu depois de acusações de assédio sexual). Leiam isto: «Desde a sua nomeação como embaixadora da Boa Vontade, Angelina mais do que satisfez as minhas expectativas.» Ainda está a pensar em vítimas de guerras ou de perseguições? Obviamente que não, estamos a pensar em Angelina a «satisfazer expectativas», com facas e fufices. O título de embaixadora da Boa Vontade é aliás todo um programa.

É justo reconhecer que Angelina não faz homilias à Bono Vox. Filha de mãe católica e de pai que até já fez de Karol Wojtyla na TV, ela aparece como uma criatura compassiva, que ouve & aprende & ajuda. Vejam como menciona várias vezes o seu estatuto especial de cidadã americana, mas se mantém politicamente neutra (foi o único livro que li nos últimos cinco anos que não ataca Bush, e incluo aqui algumas traduções de Aristófanes). Angelina recolhe informações sobre genocídios e campos minados, convive com amputados e subnutridos, faz as contas à escassez e relata o sofrimento extremo das pessoas, mas nunca entra em grandes subjectivismos. O estilo é seco e nada biográfico, digamos um estilo à Cunhal (embora Angelina não use pochette).

O empenhamento social é meritório e o registo é contido, e no entanto pouca gente compra este livro para conhecer um campo de refugiados. É muito mais excitante ver as fotografias de Angelina num campo de refugiados, camisola de alças e tatuagens destapadas, enquanto alguém distribui preservativos a uns africanos em magote. Criamos um laço com Angelina: sofremos com ela nos seus ataques de culpa ocidental («Sou tão mimada»), nos insectos que a mordem sem piedade, na comida escassa ou intragável. E estamos sempre à coca dos momentos em que ela se queixa por estar exausta e suada e suja. Ou debaixo de um chuveiro. Quando Angelina alinha uma frase de intenções humanitárias, nós lemos uma frase de inclinações libidinosas: «Havia qualquer coisa agradável no facto de as minhas roupas estarem tão sujas e eu saber porquê.» Há passagens que não afectavam ninguém se escritas por Madre Teresa de Calcutá, mas que escritas por Angelina são sugestivas. Um exemplo: «Também não tenho dormido muito bem. Provavelmente é porque fico sempre tão molhada.» É mais provável que nos recordemos de Angelina «molhada» do que aqueles clichés como «Precisamos de abrir os olhos para a maravilhosa diversidade deste mundo».

Os leitores portugueses sentirão que falta alguém nestas páginas. Quem? O alto refugiado por antonomásia: António Guterres. Mas ele só entrou como patrão de Angelina em 2005. Guterres, que certamente leu estes diários, certamente não ignora que Angelina pode ser um trunfo decisivo numas futuras presidenciais. Se Sarkozy pode, Guterres também pode. Vejam a cena: em vez da Tanzânia, o Fundão, ele fazendo beicinho e dizendo «Precisamos de abrir os olhos para a maravilhosa diversidade deste mundo», enquanto ela sussurra, entre dois beirões de bigode e unhaca: «Há qualquer coisa agradável no facto de estar tão suja e saber porquê.»



© publicado pela Ler às 09:57
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