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Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
«A identidade nacional é fundada na beleza e na força da língua»

Depois do premiado Em Terra de Homens, o escritor Hisham Matar prepara o segundo romance. Falámos com ele em Londres. Sobre tudo.


Susana Moreira Marques, em Londres


Hisham Matar é um gentleman que avança charmoso, tira o casaco, serve uma bebida e escolhe o canto mais luminoso de um clube privado no elegante bairro de Mayfair.
O cabelo torna-o inconfundível, mas os leitores, esclarece, estão sempre a tentar imaginá--lo. Como se fossem espiões. Quando terminam a última página da história do pequeno Suleiman, convencem-se de que sabem alguma coisa sobre Hisham Matar, algo mais do que vem publicado na contracapa ou na badana do seu primeiro livro, In the Country of Men (Em Terra de Homens, edição portuguesa da Civilização): quatro linhas, não mais do que isso, onde se lê que nasceu em Nova Iorque em 1970, filho de pais líbios, passou a infância em Tripoli, depois no Cairo, e vive em Londres desde 1986.
O seu primeiro livro, seleccionado para o Man Booker de 2006 e vencedor do Guardian First Book Award, não é um acto de vingança contra o regime de Kadhafi. Um livro é um livro e um homem «escreve aquilo que tem que escrever».
 

A propósito da feira do livro de Londres, o suplemento literário de The Guardian publicou opiniões de vários escritores [entre eles, Hisham Matar]. O palestiniano Mourid Barghouti dizia ironicamente que «nenhum escritor ou escritora ocidental questiona a sua universalidade; são os árabes, os africanos e os asiáticos que devem aspirar a esta universalidade».
Existe essa expectativa. Pressupõe-se que um escritor do chamado «Terceiro Mundo» escreve sobre o particular, por exemplo, como é estar nas ruas de Bombaim ou do Cairo ou de Tripoli... Mas um escritor italiano ou inglês ou americano pode ser universal.
Pode até escrever sobre as ruas de Bombaim ou do Cairo ou de Tripoli.
Exacto. As pessoas esperam muitas coisas do que, ridiculamente, o mundo editorial aqui chama «notícias de outras partes». Mas penso que muitas dessas expectativas são imaginadas. Nós continuamos a tentar adivinhar o que os outros pensam – tal e qual como os amantes –, como se o acto de adivinhação provocasse a realidade. Acho que é preciso ser cuidadoso: às vezes, as expectativas são reais mas outras vezes são imaginadas. Reais ou imaginadas, o importante é não esquecer que são convites ao artista para se comportar de determinada maneira. Recentemente, conversava com um cineasta do Burkina Faso e ele explicava-me que o financiamento vem de França e que, quando propõem ideias, os investidores franceses ficam entusiasmados com as propostas que vão ao encontro das ideias que têm do que se supõe ser um filme africano. Claro que este é um caso extremo, porque ele sem esse financiamento não pode fazer filmes e eu posso sempre escrever livros. Mas em ambos os casos existem convites para nos comportarmos de determinada maneira. Eu tenho de lembrar-me disto. Creio que a verdadeira elegância – e é a isto que os artistas deviam aspirar – é não se deixar afectar. Não reagir contra nem cumprir a expectativa. Não vou chegar a um extremo e escrever o livro mais inesperado, mas também não vou escrever o livro que esperam que eu escreva. É complicado. Tudo isto precisa de silêncio.
E quanto a outro tipo de pressão, a do sucesso? In the Country of Men foi um livro extraordinariamente bem aceite, sobretudo para um primeiro romance. Imagino as expectativas em relação ao segundo.
Há qualquer coisas de maravilhoso em escrever o primeiro livro. É um segredo. Ninguém sabe e ninguém espera nada de ti. Agora, estou a passar por uma experiência diferente. Toda a gente pergunta: «Como vai o livro?» Respondo um pouco com o mesmo tipo de trivialidade com que se responde a um «Como vai?»: «Tudo bem, e você?»  De qualquer forma, quando me sento para escrever, tudo isso desaparece, as expectativas e até as realizações. Não me sinto mais confiante do que da primeira vez.
Continua a ser um segredo?
Sim, e continua a ser difícil, e continuo a duvidar.
Numa sessão realizada no âmbito da feira do livro de Londres, confessou que quando chegou à livraria Foyles e viu anunciado o evento como uma noite com «escritores árabes» se sentiu um pouco como um impostor.
Fico muitas vezes desorientado. É como um zoom de uma câmara: às vezes chega extremamente perto, outras parte para muito longe. Nalguns momentos, sinto-me muito próximo dos escritores árabes – eles tratam-me de forma tão calorosa, abraçam-me de facto –, mas ao mesmo tempo sinto que não sou um deles. E tenho o mesmo problema em relação aos escritores ingleses meus amigos. Estou num limbo. E isso, na verdade, talvez seja uma escolha.
Num texto que publicou no Guardian, recordando a visita que fez, no Cairo, ao Nobel egípcio Naguib Mahfouz, conta que lhe perguntou: «Como vê os escritores como eu, árabes que escrevem em inglês? Pertencemos à literatura árabe ou à literatura da língua em que escrevemos?» A resposta de Mahfouz foi: «Um escritor serve a língua em que escreve.» [Convirá referir que Mahfouz acrescentou: «Mas agora quem se importa de onde era o Shakespeare?»] Onde é que pertence?
Podia responder a essa pergunta com esperteza. Poderia dizer, por exemplo, que a minha língua é inglesa mas o meu coração árabe. Mas julgo que isso seria uma forma de não responder à pergunta. Não sei. Lembro-me de que uma vez acordei a meio da noite e disse qualquer coisa à minha mulher e falei em árabe. Não estava a dormir nem a sonhar e a minha mulher não fala árabe. Foi uma surpresa para mim. Fez-me sentir que, num nível inconsciente, ainda estou a funcionar na língua árabe. Num nível ainda mais profundo do que o dos sonhos – sonho em inglês a maior parte das vezes – há esta corrente árabe a passar pela minha consciência, pelos meus pensamentos. Quanto à questão da nacionalidade, quando as pessoas me perguntam de onde sou, digo que sou líbio mas estaria a mentir se o dissesse sem reservas. Porque não sei quão factual ou verdadeiro isto é. Digo-o simplesmente porque é a forma mais simples de responder, para não ter de explicar que não sei. E também porque o meu pai ficaria agradado por me ouvir dizer que sou líbio.
As situações dos desaparecimentos políticos que se vivem em In the Country of Men repetem-se em tantos outros países, é fascinante... Desculpe, se calhar escolhi mal a palavra para falar de desaparecimentos políticos.
Não, não, também é fascinante para mim. Interessa-me sobretudo quando se trata dos pais. Porque, parece-me, procuramos nos pais sinais para encontrarmos o nosso lugar no mundo. Portanto, quando eles não estão lá,  quando foram capturados, silenciados, eliminados ou qualquer outra expressão que se queira utilizar, essa procura é muito mais intensa. Para Suleiman, a sua procura existencial é baseada nesta experiência.
Há um capítulo no livro que descreve a ansiedade de Suleiman quando a polícia política vai interrogar a mãe dele a casa. Suleiman entra numa obsessão com as provas: como provar que é filho dela? Que a mãe é a sua mãe?
É o que acontece quando temos um olhar de escrutínio sobre nós todo o tempo. Em Londres, sentimos isso de alguma forma, com as câmaras de vigilância a olhar para nós. Na situação extrema pela qual Suleiman e a família estão a passar, o escrutínio por parte do Governo é tão intenso que a paranóia deles sobre a própria inocência torna-se palpável. Cresci ao lado de pessoas que estavam continuamente a tentar demonstrar a sua lealdade para com o regime. Por exemplo, aproveitavam para fazer elogios em voz alta quando sabiam que estaria alguém a ouvir. Ninguém os acusou, mas ainda assim precisam de provar a sua inocência. Isto corrompe, é terrivelmente corrosivo. Pelo que conheço da Líbia, não vejo no horizonte os líbios a pararem para pensar: ok, isto é algo que precisamos de resolver, temos de olhar para nós e perceber porque é que isto aconteceu.
Tem o desejo de voltar a viver na Líbia?
Viver, não sei. Um passo de cada vez. Para já, gostava de ir lá molhar os pés na água. Quando chegar a altura certa vou ver a nossa casa antiga, a nossa rua e o mar onde costumava nadar.
Londres é uma boa cidade para o exílio?
Já tentei fugir duas vezes e não fui bem sucedido.
Agora, tem uma voz. Ou melhor, como autor conhecido, tem a oportunidade de ser ouvido.
A resistência líbia ficou deliciada, não queriam acreditar na sorte deles, era como se tivessem ganho a lotaria. O meu pai é um destacado dissidente, era talvez o líbio mais famoso fora da Líbia, e agora o filho deste homem escreve este livro que ganha prémios... Defendo aquilo que eles defendem mas não faz parte da minha forma de estar pertencer a uma organização política. A primeira tentação foi ficar completamente silencioso – escrever o livro e não dizer nada. Mas como cidadão sinto uma certa responsabilidade. É o mínimo de decência, não é? Testemunha-se um acontecimento e depois vem alguém que nos aponta um microfone e nós dizemos: «Está um lindo dia»? Não, há que dizer: «Sim, está um lindo dia mas olhe que eu vi isto a acontecer.»
Li o artigo autobiográfico que escreveu no Independent sobre o facto de desconhecer o paradeiro do seu pai. Continua a ter esperança de que ele esteja vivo?
Sim.
Nunca escreveu em árabe? Não pensa vir a escrever?
Quando era criança costumava escrever pequenas peças de teatro e actuar para a minha família. E também poemas, sobre as férias e coisas assim. Os meus pais transferiram-me aos 12 anos para o ensino em língua inglesa. Aos 15 anos vim para um colégio interno no Reino Unido. Poderia ir três anos para o Cairo e estudar só para começar a escrever em árabe, mas não vou fazê-lo. Porquê?
«O poeta sírio Nizar al-Qabbani, que viveu e morreu em Londres, mas que nunca abdicou da língua árabe, disse dos escritores árabes que, por se terem exilado quando ainda eram muito jovens, escreviam noutras línguas: aos olhos dele, nós éramos como cavalos selvagens – indomáveis, belos, mas perdidos.» É uma citação sua. Sente-se como um cavalo selvagem?
Os árabes têm tanto orgulho na sua língua. É o milagre deles. Pelo menos, é como vêem a língua. Cristo possuía o dom da cura, Moisés a magia e Maomé o milagre da linguagem. Cresci com o poder da linguagem do Alcorão. É muito poderoso, inebriante até. A identidade nacional é fundada na beleza e na força da língua. Portanto, os árabes amam a sua língua e tendem a ser oradores extraordinários. Fui educado numa casa em que as pessoas contavam histórias e recitavam poesia. Por isso, sinto-me um pouco como um traidor. Como se tivesse partido e estivesse a descomprometer-me – e talvez esteja. E talvez precise de o fazer para escrever o que quero escrever. O comentário de al-Qabbani é um elogio crítico, uma faca de dois gumes. Na imaginação humana, os cavalos selvagens são livres e independentes mas também indisciplinados. Ele estava a dizer-nos que somos belos mas também que nos separámos do grupo: tornámo-nos selvagens e andamos a fugir sem destino, correndo por correr.



© publicado pela Ler às 10:26
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