











JONATHAN LITTELL, O NOVO MESTRE DA SUSPEITA
Crítica de João Gonçalves
Correm os derradeiros anos da segunda guerra mundial. O narrador, ex-nazi convicto, olha agora para esse tempo com a melancolia da indiferença, sem remorsos nem pesos na consciência. É um ironista que reflecte sobre os escombros sem um vislumbre de arrependimento. O que foi, foi o que foi porque teve de ser assim, como se um determinismo amoral tivesse arrastado milhares de homens inteligentes para um abismo no qual, sem excessiva repugnância, experimentaram os cheiros e as cores da mais repugnante das mortes. As “memórias” de um antigo oficial nazi são o pretexto para Jonathan Littell “reconstruir” os derradeiros passos do regime de Hitler - para o Leste onde se atafulhou e perdeu –, recortando, vistos a partir do lado “deles” (até agora só tínhamos tido direito às versões romanceadas “correctas” da história, a dos vencedores), os perfis de homens do regime tal como eles existiram ou como o autor os ficcionou. “As Benevolentes” também é um imenso livro de história onde se surpreende a esquizofrénica burocracia do III Reich, algo a que Fest apelidou de improvisação organizada, já a caminho do seu fulgurante crepúsculo.
No texto de Littell revela-se como o bem e o mal se misturam nas peripécias de uma vida pessoal e de uma narrativa colectiva sem que isso lhe confira um estatuto de fatalidade dentro da fatalidade que efectivamente foi. Revela-se como a ficção da realidade - a realidade e a ficção que coincidiam no III Reich - pode ser “ultrapassada” através de um passeio numa paisagem paradisíaca que deixou para trás o cheiro fétido de cadáveres ou o estampido de uma arma disparada contra a nuca anónima. Revela-se como Bach ou Monteverdi sublimavam a violência interior que massacra o adversário indefeso com uma tranquilidade que, devendo assustar o leitor, apenas o sossega umas quantas páginas mais adiante. Littell entendeu bem o que Arendt quis significar com a expressão “banalidade do mal” a propósito do julgamento de Eichmann em Jerusalém. A leitura mais simplista exclamaria: “lê-se e não se acredita”. Ora a “tese” de “As Benevolentes” é justamente a contrária. Lê-se e acredita-se e eu, narrador, acreditava especialmente.
Por que é que “As Benevolentes” arrisca ser simultaneamente um dos grandes momentos da literatura contemporânea e uma tragédia clássica? Julgo que, enterrado o fantasma do “novo romance” e, sobretudo, quando se enchem escaparates com novos “romancistas”que nos vêm contar histórias de embalar que, de tão medíocres, acabam por ser pornográficas, Littell – provavelmente impossibilitado de escrever o que quer que seja depois deste “fresco “ monumental - emerge como o novo “mestre da suspeita”. O respeitável oficial das SS que nos explica a sua vida e a tenta perceber, anos volvidos sobre a catástrofe, é, no desalinho dessa “história” cruel, revista, corrigida e aumentada, o Deus sem fé que se esconde no coração do homem vazio de hoje. Crê-se, afinal, um justo nos antípodas da personagem da peça de Camus. Quem, de entre nós, poderá atirar a primeira pedra?
[Jonathan Littel, As Benevolentes. Tradução de Miguel Serras Pereira. Dom Quixote]