











Filipe Nunes Vicente
«Estar à mesa é um campeonato onde não falta a memória das velhas glórias: os que connosco cresceram, os que nos criaram, os que nos faltam. Mas estar à mesa é também uma pausa na vida e é, nesse sentido, uma fuga à vida.»
Estive para intitular esta crónica como «A arte de viver». É um título estúpido. Por que razão haveremos de fazer da vida uma arte? Se pensarmos em todos os que morreram à nascença (um qualquer caixote de lixo) ou em todos os que morreram para que outros não nasçam (Auchwitz), onde está a arte? A arte pode estar em evitar, em fugir da vida, não propriamente em viver.
Pietro Gerbore, diplomata, escritor, memorialista e gourmet, escreveu um livro admirável sobre a evasão: Una storia dell’arte de vivere (Fógola, Turim, 1985). É um livro sobre como se esteve à mesa: nos últimos 25 séculos mas com atenção especial aos últimos cinco. Como se esteve à mesa, não exactamente – ou não apenas – o que se comeu e como se comeu. Estar à mesa é um campeonato onde não falta a memória das velhas glórias: os que connosco cresceram, os que nos criaram, os que nos faltam. Mas estar à mesa é também uma pausa na vida e é, nesse sentido, uma fuga à vida.
Quando preparamos à pressa uma refeição imberbe que há-de ser mastigada entre berros e rosnadelas e rematada com o amargor que sempre sobra de um casamento gasto (e nem se aproveita para açorda), não estamos à mesa. Quando trocamos o prazer de estar e de provar pelo de ganhar, também não estamos à mesa (talvez do Orçamento Geral do Estado mas isso é outra loiça).
Gerbore vai buscar uma carta que Bernardin de Saint Pierre escreveu à mulher em Agosto de 1793. Havia fome em Paris, um pedaço de pão suscitava mais inveja do que o sucesso de uma ópera entre os escritores e toda a hospitalidade era suspeita. Esta última frase é terrível, porque a mesa é a hospitalidade. À mesa, antigamente, sentava-se o parasita (para sitos) – «o que está ao lado da comida». Bons tempos esses em que o parasita era um hóspede. Já lá iremos.
E vamos jantar com Sófocles. Édipo, cego, velho e amaldiçoado, chega a um prado verdejante. Caminha amparado por Antígona e calculo que esteja esfomeado. Uma tira de queijo, uns figos e um pouco de água fresca bastariam para o sossegar. Cheira-lhe a loureiro, vinha e oliveira. Antígona abraça as muralhas com os olhos. É a teichoskopia invertida. Em vez de ver de cima das muralhas o exército sitiante, Édipo vê (através dos olhos da filha) de baixo as muralhas que guardam os hospedeiros. O hóspede e o hospedeiro presos na mesma raiz: Ghostis, estrangeiro (guest); hosti-postis (hóspede), «senhor dos estrangeiros». Afinal estão todos sitiados.
Quem chega à mesa com fome e com sede e não é esperado, o que pode esperar? Os Anziani, conta Gerbore, administraram Bolonha entre 1530 e 1576. Ficaram famosos os banquetes oferecidos a Cristina da Suécia e a Maria Casimira da Polónia. Os convidados atravessavam um átrio de cujo tecto abobadado pendiam limões e uvas. A sala de refeições simulava uma montanha encimada pela estátua dourada de Felsina; na base, 66 couverts e 24 açucareiros de prata aguardavam os comensais. Excessivo na forma, correcto na essência.
Mesmo os homens duros da vida dura apreciavam – e apreciam – o prazer de estar à mesa com os amigos. Uma semana inteira na fazenda, pasto para aqui, gado para acolá, sachar, podar, sulfatar, mais ou menos tractor e ao domingo, depois da missa e do almoço familiar, uma tarde na adega. Nos bons tempos, umas lascas de bacalhau cru, salgado como o mar, broa, uma picheira de tinto e, claro, uma pausa.
Esta pausa na vida que se tem de ganhar, seja a da sedução política seja a da jorna monótona e ressequida, é mesmo uma evasão. Conta muito a forma como se prepara esta evasão, como nos evadimos e como acolhemos os evadidos.
Na adega ou com os Anziani, a mesa é a arte da fuga. Se o estrangeiro chegar inesperadamente fugido de qualquer lado, transforma-se num parasita: alguém que come ao (nosso) lado. E passa ser um hóspede por obra e graça da pura alquimia gastronómica.