











Depois de A Ponte Submersa, Manuel da Silva Ramos prepara um livro ainda sem título cujo pano de fundo é a zona da raia entre Vilar Formoso e Espanha envolvendo contrabandistas e emigrantes em África e na Europa.
|| Texto de José do Carmo Francisco
«O meu livro mais recente foi A Ponte Submersa [Dom Quixote], romance sobre o assassinato de três jovens raparigas de Santa Comba Dão por um cabo da GNR. Teve algum impacto mediático, mas não crítico. Isto é um paradoxo, mas no fundo já estamos habituados: temos uma crítica literária rarefeita. O nosso último crítico literário foi o Óscar Lopes. Recordo o Torcato Sepúlveda, um espírito superior cuja morte recente nos deixa mais pobres. Era um crítico certeiro, culto, informado, um espírito aberto. Foi o único que se referiu ao meu Adeusamália e Coisas do Vinho [Fenda].
«A Ponte Submersa é coerente com os livros anteriores, no qual desmistifico a sociedade portuguesa e ataco a GNR, uma organização arcaica, prepotente e privilegiada. Mas não é só isso. É também o elogio da ecologia e do rio Mondego. Tem uma originalidade: o narrador é a chuva. Tal permite-me meter dentro do espírito da chuva e narrar a história à minha maneira.
«Estou agora a acabar um romance cujo pano de fundo é a raia entre Vilar Formoso e Espanha, nos anos 50. Além dos contrabandistas há os emigrantes que passavam a salto. Eu próprio passei a salto. Tal como no livro anterior, entra uma parte de investigação (30 por cento) e outra de imaginação (70 por cento). Há três histórias, cada uma com cem páginas. Há o contrabandista dos anos 50, há o emigrante africanista que se torna muito rico e amigo do Presidente da República de um país africano e há a história do meu primo: saiu de Portugal de uma família pobre e tornou-se um dos grandes distribuidores de cinema em França e na Europa, um emigrante com uma excelente posição social. São três histórias muito ligadas entre si. É o elogio do emigrante e do contrabandista aventureiro que conseguem ter sucesso na vida partindo de situações muito pobres e quase marginais.
«Creio que é um livro subversivo e transgressivo. Quem o ler irá descobrir como. Ao nível da escrita e da construção, tem muito de inovador. Andei por aldeias da raia falando com pessoas, descobrindo paisagens, percorri caminhos muito velhos junto à fronteira de Espanha. Fiz o meu trabalho de campo. O romance ainda não tem título, ando à procura de um sugestivo. Não posso esquecer que fui emigrante, exilado político, refugiado em Paris. Depois estive em Toulouse e não só. É um livro que me é muito caro e muito próximo. Entretanto, sairá uma reedição de Os Três Seios de Novélia, Prémio de Novelística Almeida Garrett em 1968, instituído pelas editoras Inova e Portugália Editora.
«Nasci em 1947 na Covilhã. Foi lá que fiz os meus estudos liceais. Frequentei a Faculdade de Direito de Lisboa mas ao fim de quatro anos exilei-me em França para fugir ao fascismo. Escrevi três livros em parceria com Alface [João Alfacinha da Silva]: Os Lusíadas [1977], As Noites Brancas do Papa Negro [1982] e Beijinhos [1996]. Regressei em definitivo a Portugal em 1997, depois de 27 anos de exílio. Com o apoio da bolsa de criação atribuída pelo Ministério da Cultura publiquei quatro livros em 1999: Portugal, e o Futuro?, O Tanatoperador, Adeusamália e Coisas do Vinho. Em 2000, depois de uma investigação em Moçambique, saiu o meu romance mais ambicioso: Viagem com Branco no Bolso. Dois anos depois, Jesus, the Last Adventure of Franz Kafka, escrito em Praga com o apoio de outra bolsa de criação literária. Em 2003 criei no café Montalto uma Factoficção sobre a minha cidade natal e o mundo dos têxteis. Ambulância e O Sol da Meia-Noite seguido de Contos para a Juventude antecedem A Ponte Submersa. Continuo a ter muitos textos inéditos.» |